o BloG dA pRofA











{Junho 15, 2012}   A assembleia dos ratos
Imagem

Ilustração: Gustave Doré

A assembléia dos ratos

Um gato de nome Faro-Fino deu de fazer tal destroço na rataria duma casa velha que os sobreviventes, sem ânimo de sair das tocas, estavam a ponto de morrer de fome.

Tornando-se muito sério o caso, resolveram reunir-se em assembléia para o estudo da questão.  Aguardaram para isso certa noite em que Faro-Fino andava aos mios pelo telhado, fazendo sonetos à lua.

– Acho — disse um deles — que o meio de nos defendermos de Faro-Fino é lhe atarmos um guizo ao pescoço. Assim que ele se aproxime, o guizo o denuncia e pomo-nos ao fresco a tempo.

Palmas e bravos saudaram a luminosa idéia.  O projeto foi aprovado com delírio. Só votou contra, um rato casmurro, que pediu a palavra e disse — Está tudo muito direito.  Mas quem vai amarrarar o guizo no pescoço de Faro-Fino?

Silêncio geral.  Um desculpou-se por não saber dar nó.  Outro, porque não era tolo.  Todos, porque não tinham coragem. E a assembléia dissolveu-se no meio de geral consternação.

Dizer é fácil; fazer é que são elas!

Em: Fábulas, Monteiro Lobato, São Paulo, Ed. Brasiliense:1966, 20ª edição.

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{Agosto 25, 2011}   LeMinsKi aNo

Aqui tou eu pra te proteger dos perigos da noite, do dia

Sou fogo, sou terra, sou água, sou gente, 

eu também sou filha de Santa Maria

Desencontrários (Paulo Leminski)

   Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
   Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
   Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.

   Mandei a frase sonhar,
e ela foi num labirinto.
   Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
   para conquistar um império extinto.

Dia 24/08 (quarta-feira), o escritor curitibano Paulo Leminski completaria 67 anos. Para comemorar a data, a Biblioteca Pública do Paraná (BPP) e o Museu da Imagem e do Som (MIS-PR) abrem a exposição “Clics em Curitiba”, com 24 painéis de fotos de Jack Pires associadas a poemas de Leminski, considerado um dos escritores brasileiros mais importantes da segunda metade do século 20.

As imagens e os textos foram originalmente publicados no livro “Quarenta Clics em Curitiba”, lançado pela dupla em 1976. A abertura da mostra é às 19h, em seguida, às 19h30, será exibido no Auditório Paul Garfunkel o documentário “Ervilha da fantasia – uma ópera Paulo Leminskiana”, do cineasta Werner Schumann

A programação ainda conta com a leitura dramática do texto “O dia em que morreu Leminski”, escrito pelo jornalista e dramaturgo Rogério Viana, também no auditório, às 17h30. A leitura é dirigida por Léo Moita e tem participação dos atores Felipe Custódio, Val Salles e Naiara Bastos.

Jack Pires foi um fotógrafo paulista radicado durante muitos anos em Curitiba, onde desenvolveu diversas atividades na Fundação Cultural de Curitiba e trabalhou em importantes estúdios fotográficos. Realizou, nos anos 1970 e 1980, valiosos registros do cotidiano da capital paranaense, num estilo que foi comparado ao de Henri Cartier-Bresson. Em 1976 convidou Leminski para associar seus poemas a diversos flagrantes registradas nas praças e ruas da cidade. O resultado é um livro de grande valor artístico e documental. [imprensa@seec.pr.gov.br]

Serviço:

Clics de Curitiba

Exposição de fotos do livro “Quarenta Clics em Curitiba”

A partir de 24 de agosto, às 19h

Visitação até 24 de setembro – Hall de entrada

Biblioteca Pública do Paraná – Rua Cândido Lopes, 133, Centro, Curitiba.

Entrada franca

Mais informações: (41) 3221-4917

Veja mais: http://www.youtube.com/watch?v=MHkya98tKgs

Leia mais: 

http://pauloleminskipoemas.blogspot.com/

http://www.releituras.com/pleminski_menu.asp

http://www.kakinet.com/caqui/leminski.htm



{Junho 17, 2011}   O despertar da primavera

Parabéns às formandas e aos formandos!



{Fevereiro 26, 2011}   Variação linguística

Para minhas (meus) queridas(os) futuras(os) Técnicas(os) em Química:

 

Aula de Português

 

A linguagem
na ponta da língua,
tão fácil de falar
e de entender.

 

A linguagem
na superfície estrelada de letras,
sabe lá o que ela quer dizer?

 

Professor Carlos Góis, ele é quem sabe,
e vai desmatando
o amazonas da minha ignorância.
Figuras de gramática, esquipáticas,
atropelam-me, aturdem-me, sequestram-me.

 

Já esqueci a língua em que comia,
em que pedia para ir lá fora,
em que levava e dava pontapé,
a língua, breve língua entrecortadado namoro com a prima.
O português são dois; o outro, mistério.

 

Carlos Drummond de Andrade

 

 


Leia mais:

http://www.slideshare.net/larose/variao-lingustica

http://www.unicamp.br/iel/site/alunos/publicacoes/textos/v00003.htm

http://educacao.uol.com.br/portugues/ult1693u60.jhtm

http://www.vestibularseriado.com.br/redacao/apostilas/item/373-variacao-linguistica



{Setembro 17, 2010}   Antes que o mundo acabe

Leia mais: http://cinema.cineclick.uol.com.br/filmes/ficha/nomefilme/antes-que-o-mundo-acabe/id/16299

Obrigada, querida!



{Agosto 28, 2010}   Parlamento Juvenil do MERCOSUL

O que é?

Desde o início da década de 1980, a maioria dos países da região levaram adiante uma série de processos orientados para a democratização, o fortalecimento das instituições e a promoção de diversos mecanismos de participação. Com o correr dos anos, estes países foram perceben­do que a consolidação das suas democracias requer circular e avançar por outros caminhos. Por um lado, as profundas transformações eco­nômicas, sociais, culturais e tecnológicas ocor­ridas colocaram novos problemas e desafios que obrigam a redefinir o que significa o exer­cício de uma cidadania plena e ativa. Mas, por outro lado, estes países perceberam que, para aumentar e consolidar a cultura democrática, tornou-se incontornável prestar atenção a uma população em particular: a juventude.

Os jovens e as jovens, com as suas múl­tiplas vivências, expectativas, inquietudes e preocupações têm muito a dizer, pensar, discu­tir e propor, sobre temas e problemas do mundo contemporâneo que, enquanto afetam as socie­dades no seu conjunto, têm uma incidência es­pecífica nos seus projetos de vida.

Neste cenário, coloca-se o projeto Parla­mento Juvenil do MERCOSUL, cujo principal propósito é abrir espaços de participação juve­nil que possibilitem a troca, discussão e diálogo entre pares sobre temas profundamente vinculados com a vida presente e futura dos jovens, e sobre os quais é muito importante que possam construir um posicionamento próprio. O projeto propõe-se contribuir para a formação política e de cidadania das jovens e dos jovens oferecendo-lhes ferramentas que os habilitem como participantes ativos nos grupos e nas comunidades das quais fazem parte.

Quem participa?

Representantes dos países do MERCOSUL: Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Paraguai e Uruguai. Os países que participam deste projeto con­cordaram na necessidade de estabelecer como faixa etária a idade de 15 a 17 anos, mas cada país, se o considerar necessário, terá a possi­bilidade de alargar a faixa de 14 a 18 anos. Também se concordou trabalhar em escolas públicas de nível médio, dando prioridade aos setores mais carentes. Prevê-se, além disso, a participação em igual número de mulheres e homens.

Quais os temas debatidos?

Inclusão educativa

Gênero

Jovens e trabalho

Participação cidadã dos jovens

Direitos humanos

Estes assuntos foram selecionados – entre outros possíveis e de interesse– porque se considerou que envolvem direitos reconhecidos nos países, tanto em normativas nacionais específicas como em legislações internacionais nas quais se inscrevem os Estados que integram este projeto.

Como é o processo de seleção dos representantes?

O “Parlamento Juvenil do MERCOSUL” nasceu como um projeto cujo principal objetivo é abrir espaços de participação para que os e as jovens troquem ideias, dialoguem e discutam entre eles/as sobre temas que tenham uma profunda vinculação com suas vidas presentes e futuras. Após as participações feitas nas distintas equipes de trabalho, inicia-se uma nova etapa para o Parlamento, destinada a recuperar as contribuições e propostas feitas até esse ponto. Então se abre um novo grupo de troca chamado A escola que queremos.

A seleção de jovens representantes para participar no encontro regional a efetuar-se na cidade de Montevidéu no mês de outubro de 2010 já está sendo realizada. Esses jovens terão um espaço de trabalho colaborativo no portal chamado A escola que queremos. Preparando-nos para o encontro de Montevidéu.

Os textos selecionados no Paraná serão publicados neste espaço para que todas e todos possam dialogar, discutir, propor idéias e construir novas reflexões para contribuir cada vez mais com o objetivo de alcançar O Ensino Médio que queremos.

Para saber mais: http://parlamentojuvenil.educ.ar

http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/diaadia/diadia/modules/noticias/article.php?storyid=1769&PHPSESSID=2010082722005931



{Julho 16, 2010}   Enquanto dura a festa

Eles estão lá embaixo, chorando o morto: Mamãe, meus irmãos, meus tios, meus primos primeiros, meus primos segundos, os amigos, os inimigos, os vizinhos, os caridosos, os curiosos, os que iam passando, os que souberam, os que gostam de ver defunto ou gente chorando – todo mundo. Às vezes tudo fica tão silencioso, que começo a dormir; mas logo alguém grita ou há um choro desatinado, e eu rolo na cama, com o travesseiro grudado no rosto, xingando. Não se cansam? Desde a madrugada isso.

Na hora que ele morreu, minha irmã veio gritando pela casa como se fosse o fim do mundo; acordei com o coração na garganta, quase que eu também morro. Levantei do jeito que estava, só de cueca, e fui correndo ao quarto dele. Mamãe estava lá, na cabeceira da cama, desesperada. Corri ao telefone e chamei o médico. O médico veio, examinou, abanou a cabeça. “Não! Não”, gritava Mamãe. Estava uma cena ridícula:o velho morto, na cama, de olhos arregalados e boca aberta; Mamãe, de camisola e descabelada, agarrando Papai e gritando; minha irmã, também só de camisola, agarrada a Mamãe e gritando; o médico de terno e gravata (afinal ele não correu tanto assim como disse: ele não teve tempo de pentear o cabelo e de pôr a gravata?), e eu só de cueca. Lembrei-me desses quadros: “À cabeceira do morto”. Só que neles nunca aparece um sujeito de cueca, e os mortos têm sempre uma expressão bela e serena. A expressão de meu pai era a última coisa do mundo que se poderia chamar de bela e serena: era horrível, uma expressão de dor, pavor e desespero. Se eu acreditasse em inferno, diria que meu pai àquela hora estava vendo o inferno. Depois arranjaram a cara dele: fecharam seus olhos e amarraram um pano ao redor do rosto. Chamam isso de “respeito pelos mortos”. Eu queria ver, num velório, um morto com aquela cara que tinha meu pai. Mas um morto não tem direito nem mais à própria cara…

Logo a casa se encheu de gente. Primeiro vieram os vizinhos, os parentes; depois os outros. Eles arranjaram tudo. Meu irmão casado veio logo e tomou as providências necessárias. Na hora de botar o velho no caixão, eu ajudei, pegando os pés dele. Depois vim para o quarto. Espero que ninguém venha aqui me chamar. Eu já avisei. Eles sabem como eu sou. A morte do velho não muda nada: eu não tinha nada com ele em vida, por que vou ter agora que ele está morto?

“Meus sentidos pêsames”- os palhaços. Um chegou com cara de pêsames mais caprichada do mundo e, na hora de me estender a mão: “Meus parabéns”- e nem deu pela coisa. Quase estourei numa risada. Há os que chegam e não falam nada, só dão uns tapinhas e ficam um pouco abraçados com a gente. Nogueira foi um desses. Chegou e me deu uns tapinhas nas costas – mas eu não estendia um dedo para o filho da puta. Nogueira devia um milhão para Papai, que vivia atrás dele, cobrando. Mas o desgraçado sumia, que ninguém achava; e quando dava azar de ser encontrado, prometia que viria aqui em casa acertar tudo. Papai não acreditava, claro; mas já andava cansado e doente, não queria complicação.

Um milhão. Agora o velho morreu, e Nogueira aparece todo santinho, todo compungido, todo minhas-condolências. “Evitem de ele ter aborrecimentos fortes”, dizia o médico. Um milhão é um aborrecimento forte. Eu devia ter perguntado para o Nogueira: “Cadê o dinheiro?” Devia ter perguntado para ele ali, diante dos outros, na vista de todo mundo. “Cadê dinheiro? Cadê o milhão que você deve para Papai? “Envergonhá-lo, humilhá-lo, mostrar que ele foi um dos que ajudaram a matar o velho; fazê-lo ajoelhar diante do caixão e esfregar o nariz dele nos pés do defunto, fazê-lo pedir perdão, depois tocá-lo de casa a pontapés. Devia ter feito isso. Devia tê-lo arrasado, de tal modo que ele jamais se esquecesse disso, assim como os que tivessem visto a cena. Que isso ficasse em sua memória como um risco de faca na cara.

Bondade diante do caixão: o morto não precisa dela, ele está morto. Felizmente ele está morto. “Seu pai foi um santo homem”, me disse o vizinho, o que Papai, em casa, chamava de crápula; como ele, em sua rodinha, chamaria Papai? Santo homem… Nunca, Papai nunca foi isso. Era um homem egoísta, às vezes cruel, um marido desconfiado, um pai sem carinho, um filho distante. Mas se, durante a vida dele, essas pessoas que estão lá embaixo agora tivessem chorando um pouco por ele, sido boas com ele, talvez ele tivesse sido melhor. Mas, vê-se, elas estavam esperando primeiro ele morrer. Ser bom com os vivos dá muito trabalho: amanhã ele estará morto, e iremos chorar sobre o seu cadáver -assim é mais fácil.

Santo homem (quem eles pensam que estão enganando? o morto? eles mesmos? os parentes do morto?): quando alguém diz isso, Mamãe chora, minha irmã chora, meu irmão chora, todo mundo chora. É como uma festa, uma festa fúnebre, em que, o invés de rir, todo mundo chora e se embriaga com lágrimas, enquanto piedosas mentiras são ditas à meia-voz por rostos falsamente compungidos. E, no meio de tudo isso, o morto – a causa, o pretexto, o ornamento. Sua alma já descansou, mas seu corpo ainda deve permanecer, enquanto dura a festa.

Colaboração: Pedro Afonso – 1º AD



{Julho 16, 2010}   Cuide do que é seu

O grandioso Nordeste

Eita,Nordeste da peste,

Mesmo com toda seca

Abandono e solidão,

Talvez pouca gente perceba

Que teu mapa aproximado

Tem forma de coração.

Procure no mundo uma cidade

Com a beleza e a claridade

Do luar do meu sertão.

(Luiz Gonzaga de Moura)


Hoje o Nordeste vem sofrendo com o abandono de nossos governos, pois todos nós quando ouvimos falar do Nordeste pensamos apenas em seca e pobreza. Enquanto na realidade nos esquecemos que lá também existem muitas riquezas como a do petróleo e a do algodão. Isso prova que o Nordeste também possui muitas riquezas. Mas com tanta seca, o Nordeste sofre agora com enchentes que estão acabando com a vida de muitas famílias.

Alunas (os): Millena, Beatriz, Felipe, Leticia e Keilla. 1ºG



{Julho 16, 2010}   Cidade de Deus

O nome dele é João Romeiro, mas é conhecido como Zinho na Cidade de Deus, uma favela em Jacarepaguá, onde comanda o tráfico de drogas. Ela é Soraia Gonçalves, uma mulher dócil e calada. Soraia soube que Zinho era traficante dois meses depois de estarem morando juntos num condomínio de classe média alta da Barra da Tijuca. Você se importa?, Zinho perguntou, e ela respondeu que havia tido na vida dela um homem metido a direito que não passava de um canalha. No condomínio Zinho é conhecido como vendedor de uma firma de importação. Quando chega uma partida grande de droga na favela Zinho some durante alguns dias. Para justificar sua ausência Soraia diz, para as vizinhas que encontra no playground ou na piscina, que o marido está viajando pela firma. A polícia anda atrás dele, mas sabe apenas o seu apelido, e que ele é branco. Zinho nunca foi preso.

Hoje à noite Zinho chegou em casa depois de passar três dias distribuindo, pelos seus pontos, cocaína enviada pelo seu fornecedor em Puerto Suarez e maconha que veio de Pernambuco. Foram para a cama. Zinho era rápido e rude e depois de foder a mulher virava as costas para ela e dormia. Soraia era calada e sem iniciativa, mas Zinho queria ela assim, gostava de ser obedecido na cama como era obedecido na Cidade de Deus.

“Antes de você dormir posso te perguntar uma coisa?”

“Pergunta logo, estou cansado e quero dormir, amorzinho.”

“Você seria capaz de matar uma pessoa por mim?”

“Amorzinho, eu mato um cara porque ele me roubou cinco gramas, não vou matar um sujeito que você pediu? Diz quem é o cara. É aqui do condomínio?”

“Não”.

“De onde é?”

“Mora na Taquara”.

“O que foi que ele te fez?”

“Nada. Ele é um menino de sete anos. Você já matou um menino de sete anos?”

“Já mandei furar a bala as palmas das mãos de dois merdinhas que sumiram com uns papelotes, pra servir de exemplo, mas acho que eles tinham dez anos. Por que você quer matar um moleque de sete anos?”

“Para fazer a mãe dele sofrer. Ela me humilhou. Tirou o meu namorado, fez pouco de mim, dizia para todo mundo que eu era burra. Depois casou com ele. Ela é loura, tem olhos azuis e se acha o máximo.”

“Você quer se vingar porque ela tirou o seu namorado? Você ainda gosta desse puto, é isso?”

“Gosto só de você, Zinho, você é tudo para mim. Esse merda do Rodrigo não vale nada, só sinto desprezo por ele. Quero fazer a mulher sofrer porque ela me humilhou, me chamou de burra, ria na frente dos outros.”

“Posso matar esse puto.”

“Ela nem gosta dele. Quero fazer essa mulher sofrer muito. Morte de filho deixa a mãe desesperada.”

“Está bem. Você sabe onde o menino mora?”

“Sei.”

“Vou mandar pegar o moleque e levar para a Cidade de Deus.”

“Mas não faz o garoto padecer muito.”

“Se essa puta souber que o filho morreu sofrendo é melhor, não é? Me dá o endereço. Amanhã mando fazer o serviço, a Taquara é perto da minha base.”

De manhã bem cedo Zinho saiu de carro e foi para a Cidade de Deus. Ficou fora dois dias. Quando voltou, levou Soraia para a cama e ela docilmente obedeceu a todas as suas ordens, Antes de ele dormir, ela perguntou, “você fez aquilo que eu pedi?”

“Faço o que prometo, amorzinho. Mandei meu pessoal pegar o menino quando ele ia para o colégio e levar para a Cidade de Deus. De madrugada quebraram os braços e as pernas do moleque, estrangularam, cortaram ele todo e depois jogaram na porta da casa da mãe. Esquece essa merda, não quero mais ouvir falar nesse assunto”, disse Zinho.

“Sim, eu já esqueci.”

Zinho virou as costas para Soraia e dormiu. Zinho tinha um sono pesado. Soraia ficou acordada ouvindo Zinho roncar. Depois levantou-se e pegou um retrato de Rodrigo que mantinha escondido num lugar que Zinho nunca descobriria. Sempre que Soraia olhava o retrato do antigo namorado, durante aqueles anos todos, seus olhos se enchiam de lágrimas. Mas nesse dia as lágrimas foram mais abundantes.

“Amor da minha vida”, ela disse, apertando o retrato de Rodrigo de encontro ao seu coração sobressaltado.


Rubem Fonseca. Histórias de Amor. Cia. das Letras: São Paulo, 1997.

Colaboração: Evelyn Carolina 1ºAD



Num bairro de um subúrbio qualquer, uma simpática menina negra de pequenos olhos castanho-escuros está sentada na calçada de cimento grosso e mal-acabado de sua casa enquanto brinca com um travesseiro que é a sua boneca preferida, na interminável tentativa da criança que deseja ocupar o papel de mãe pelo puro exercício da repetição. Na falta de bonecas, Ióli vestiu em um travesseiro uma camisa branca estampada com propaganda em letras vermelhas de algum partido político e um short surrado, desses ganhos em qualquer quermesse bem-intencionada preocupada em oferecer algum conforto aos pobres. Ela acha que não fica bem para boneca alguma andar por aí sem roupa.

Esta menina, rechonchuda devido à ingestão de carboidratos baratos como pão, macarrão e arroz, mas desnutrida, cuja barriga raramente digere frutas e legumes, artigos de luxo em famílias pobres alimentadas com cestas básicas de caridade, usa roupas concedidas por estranhos freqüentadores de templos da fé onde, na maioria das vezes, é possível encontrar alguns pobres de espírito com armários abarrotados de peças de roupa de grife.

Ióli vive num bairro ocupado por moradores de baixíssima renda, onde existem inúmeras igrejas, de diferentes denominações, e nenhuma agência bancária. Cidades desenvolvidas podem ser medidas pela contagem de bancos. Cidades esquecidas podem ser medidas pelo número de igrejas.

Esta menina cor de chocolate ao leite tem os pés chatos e as pernas tortas, por isso usa sistematicamente umas implacáveis botas ortopédicas, que Ióli só tira para dormir. Essas botas, fruto da boa vontade da mãe de uma menina vizinha que calçava um número menor que o seu, provocam fortes dores nos pés da garota, que detestará sapatos para o resto da vida.

Há cinco dias, esta pequena canhota chora a ausência da mãe, inesperadamente desaparecida após uma ida repentina ao hospital público mais próximo. Em sua humilde casa, coberta por tijolos, pedaços de madeira e lona, reina um silêncio amarelo carregado de angústia. Ninguém tem autorização para comentar a ausência da mãe, nem mesmo as vizinhas fofoqueiras com muitos filhos criados, atualmente ocupadas com a vida alheia. Ióli resolve brincar enquanto ainda há tempo.

No seu momento mais dramático, Ióli aperta e abraça a bonequinha-travesseiro improvisada, procurando sentir o cheiro da mãe. Nessa casa igual a tantas outras, ninguém almoça, ninguém janta nem toma banho. É assim quando não tem nenhuma mãe por perto. Todo mundo fica meio perdido, meio filho desmamado, meio cachorro criado em casa, sem rumo nas ruas.

Um fato inusitado quebra o ritmo desse refrão de blues empestiado de um lamento cinza – o irmão mais velho entrou pela porta da frente a correr, sem camisa, com o seu cabelo grande e crespo despenteado e as suas pernas pretas foscas sem hidratante. O irmão grita e gesticula, totalmente descontrolado: – Mamãe morreu! Ninguém chora, ninguém grita aqui, mamãe morreu!

A cena fica muda no pequeno universo dessa criança, que despe e joga longe o travesseiro-boneca e corre descalça para o banheiro com chão de cimento gelado. Ióli decide tomar banho sozinha pela primeira vez. Abre o chuveiro e deixa a água cair na sua cabeça cheia de pensamentos nublados; ela já sabe tomar banho sozinha, mamãe ensinou. Chora e despede-se da própria infância. A menina de sete anos e oito meses escoa pelo ralo encharcado pelas suas memórias; os desenhos infantis, a comidinha da infância, as brincadeiras e todas as noites de insônia, quando dormia agarrada no braço da mãezinha. Ióli tem medo do escuro.

Na minúscula sala-quarto-cozinha, único cômodo da casa, entupida de curiosos, aparecem as três vizinhas fofoqueiras, com os olhos esbugalhados e vestidos de bolinhas de chita com esquisitos botões frontais. A mais velha, muito magra, pálida e rabugenta, segura Ióli pelo braço e, num movimento rápido, que expressa imediatamente seu temperamento autoritário, arrasta a menina com firmeza até a porta de saída da casa. Cuidar de alguém é um exercício praticado de forma doentia por adultos que, na infância, viveram a experiência do abandono.

Ióli tenta resistir. Em vão. Lembra seu aniversário de cinco anos. Naquela ocasião, a mãe confeitou o bolo com um saco de leite de vaca. Lembrou do vestido lindo que ganhou, costurado pela mãe, mas definitivamente as botas ortopédicas não combinavam com nada. Lembrança engraçada em momento triste.

A velha segue pela ladeira de paralelepípedos em seu passo apressado, sempre a praguejar e beliscar Ióli, que se deixa levar a favor da maré. Fica a pensar em como amarrar os sapatos na hora de vestir a roupa para o enterro, pois ainda não sabe amarrar os próprios sapatos. Fica a pensar se crianças podem entrar nos cemitérios, pois a morte não é assunto pra gente pequena.

Ao chegar à casa dessa tal vizinha, Ióli imagina sua vida sem a proteção da mãe. Por ora, teria que enfrentar Verônica. A velha tem uma neta da mesma idade de Ióli, a menina mais cruel da rua. Mesmo num dia trágico como aquele, a garota pega um pedaço de bombril e fica a comparar com o cabelo de Ióli, que não reage, pois está muito distante da realidade cotidiana. Nenhuma das maldades da neta estagiária do empreendimento de maldades da avó poderia furar a espessa redoma de dor e dúvidas daquela garotinha.

Todas as casas parecem iguais. Ióli cai em qualquer canto do cômodo minúsculo devidamente adornado ao centro por um enfeitado aparelho de televisão. O gordo barbudo marido da vizinha está sentado em cima de um caixote de madeira, assiste à sessão da tarde e fuma um cigarro desses bem fedidos. Parece um delegado frustrado em final de carreira. A vizinha entra impaciente e diz com voz de taquara rachada:

– Hora do almoço.

Todo mundo come sentado no chão da sala apertada com o prato na mão.

O marido parece viver em outro planeta enquanto a comida cai do prato e suja a vida real. Só desperta com o grito estridente da velha:

– Hoje só temos arroz com farinha.

Ióli remexe o prato sem apetite algum. Imagina sua volta para casa, o enterro da mãe, os seus três irmãos, a necessidade de organizar as coisas. A verdade é que na sua casa há muito tempo, ninguém almoça, ninguém janta nem toma banho. É assim quando nenhuma mãe está por perto. Lembra de um sonho antigo. Na sua fantasia de menina, sempre desejou comer um bife bem grande, do tamanho do prato, com cebola, salada, arroz, feijão e batatas fritas. Não devia faltar comida para criança alguma. Ióli deixa o prato de lado. Chora desesperadamente. É um pranto mitológico, que traduz uma angústia indescritível: a falta da mãe. Como será a vida das crianças que têm mãe e pai e comem bife com batatas fritas?

Cadernos Negros, Volume 30: Contos afro-brasileiros. Org. Esmeralda Ribeiro, Márcio Barbosa. São Paulo. Quilombhoje, 2007. P.43

Confira nova versão no blog da autora: http://cristianesobral.blogspot.com/2010/05/bife-com-batata-frita-conto-de.html



{Junho 15, 2010}   Contos de amor rasgados

Amor de longo alcance

Durante anos, separados pelo destino, amaram-se a distância. Sem que um soubesse o paradeiro do outro, procuravam-se através dos continentes, cruzavam pontes e oceanos, vasculhavam vielas, indagavam. Bússola da longa busca, levavam a lembrança de um rosto sempre mutante, em que o desejo, incessantemente, redesenhava.

Já quase nada havia em comum entre aqueles rostos e a realidade, quando enfim, numa praça se encontraram. Juntos, podiam agora viver a vida com que sempre haviam sonhado.

Porém cedo descobriram que a força do seu passado amor era insuperável. Depois de tantos anos de afastamento, não podiam viver senão separados, apaixonadamente desejando-se. E, entre risos e lágrimas, despediram-se, indo morar em cidades distantes.


COLASANTI, Marina. Contos de Amor Rasgados. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.



{Junho 7, 2010}   Olimpíada 10

A arte de ser avó
Rachel de Queiroz

Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu. É, como dizem os ingleses, um ato de Deus. Sem se passarem as penas do amor, sem os compromissos do matrimônio, sem as dores da maternidade. E não se trata de um filho apenas suposto, como o filho adotado: o neto é realmente o sangue do seu sangue, filho de filho, mais filho que o filho mesmo…

Quarenta anos, quarenta e cinco… Você sente, obscuramente, nos seus ossos, que o tempo passou mais depressa do que esperava. Não lhe incomoda envelhecer, é claro. A velhice tem suas alegrias, as suas compensações – todos dizem isso, embora você, pessoalmente, ainda não as tenha descoberto – mas acredita.

Todavia, também obscuramente, também sentida nos seus ossos, às vezes lhe dá aquela nostalgia da mocidade. Não de amores nem de paixões: a doçura da meia-idade não lhe exige essas efervescências. A saudade é de alguma coisa que você tinha e lhe fugiu sutilmente junto com a mocidade. Bracinhos de criança no seu pescoço. Choro de criança. O tumulto da presença infantil ao seu redor. Meu Deus, para onde foram as suas crianças? Naqueles adultos cheios de problemas que hoje são os filhos, que têm sogro e sogra, cônjuge, emprego, apartamento a prestações, você não encontra de modo nenhum as suas crianças perdidas. São homens e mulheres – não são mais aqueles que você recorda.


E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação ou do parto, o doutor lhe põe nos braços um menino. Completamente grátis – nisso é que está a maravilha. Sem dores, sem choros, aquela criancinha da sua raça, da qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela criancinha, longe de ser um estranho, é um menino seu que lhe é “devolvido”. E o espantoso é que todos lhe reconhecem o seu direito de o amar com extravagância; ao contrário, causaria escândalo e decepção se você não o acolhesse imediatamente com todo aquele amor recalcado que há anos se acumulava, desdenhado, no seu coração.

Sim, tenho certeza de que a vida nos dá os netos para nos compensar de todas as mutilações trazidas pela velhice. São amores novos, profundos e felizes, que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixados pelos arroubos juvenis.

[…]

E quando você vai embalar o menino e ele, tonto de sono, abre um olho, lhe reconhece, sorri e diz: “Vó!”, seu coração estala de felicidade, como pão ao forno.

[…]

Até as coisas negativas se viram em alegrias quando se intrometem entre avó e neto: o bibelô de estimação que se quebrou porque o menininho – involuntariamente! – bateu com a bola nele. Está quebrado e remendado, mas enriquecido com preciosas recordações: os cacos na mãozinha, os olhos arregalados, o beiço pronto para o choro; e depois o sorriso malandro e aliviado porque “ninguém” se zangou, o culpado foi a bola mesmo, não foi, Vó? Era um simples boneco que custou caro. Hoje é relíquia: não tem dinheiro que pague…

Elenco de cronistas modernos. 21ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2005.



{Junho 7, 2010}   Olimpíada 9

A bola
Luis Fernando Veríssimo

O pai deu uma bola de presente ao filho. Lembrando o prazer que sentira ao ganhar a sua primeira bola do pai. Uma número 5 sem tento oficial de couro. Agora não era mais de couro, era de plástico. Mas era uma bola.

O garoto agradeceu, desembrulhou a bola e disse “Legal!”. Ou o que os garotos dizem hoje em dia quando gostam do presente ou não querem magoar o velho. Depois começou a girar a bola, à procura de alguma coisa.

— Como e que liga? — perguntou.


— Como, como é que liga? Não se liga.

O garoto procurou dentro do papel de embrulho.

— Não tem manual de instrução?

O pai começou a desanimar e a pensar que os tempos são outros. Que os tempos são decididamente outros.

— Não precisa manual de instrução.

— O que é que ela faz?

— Ela não faz nada. Você é que faz coisas com ela.

— O quê?

— Controla, chuta…

— Ah, então é uma bola.

— Claro que é uma bola.

— Uma bola, bola. Uma bola mesmo.

— Você pensou que fosse o quê?

— Nada, não.

O garoto agradeceu, disse “Legal” de novo, e dali a pouco o pai o encontrou na frente da tevê, com a bola nova do lado, manejando os controles de um videogame. Algo chamado Monster Baú, em que times de monstrinhos disputavam a posse de uma bola em forma de bip eletrônico na tela ao mesmo tempo que tentavam se destruir mutuamente.

O garoto era bom no jogo. Tinha coordenação e raciocínio rápido. Estava ganhando da máquina.

O pai pegou a bola nova e ensaiou algumas embaixadas. Conseguiu equilibrar a bola no peito do pé, como antigamente, e chamou o garoto.

— Filho, olha.

O garoto disse “Legal”, mas não desviou os olhos da tela. O pai segurou a bola com as mãos e a cheirou, tentando recapturar mentalmente o cheiro de couro. A bola cheirava a nada. Talvez um manual de instrução fosse uma boa ideia, pensou. Mas em inglês, para a garotada se interessar.

Comédias para ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.



{Junho 7, 2010}   Olimpíada 8

Falemos das flores (25 de novembro de 1855)
José de Alencar

Falemos das flores.

O que é uma flor?

Será esta criação vegetal que na primavera se abre do botão de uma planta?

Não: a flor é o tipo da perfeição, é a mais sublime expressão da beleza, é um sorriso cristalizado, é um raio de luz perfumado.

Por isso há muitas espécies de flor.

Há as flores do vale – mimosas criaturas que vivem o espaço de um dia, que se alimentam de orvalho, de luz e de sombras.

Há as flores do céu – as estrelas, – que brilham à noite no seu manto azul, como os olhos de uma linda pensativa.

Há as flores do ar – as borboletas, – que têm nas suas asas ligeiras as mais belas cores do prisma.

Há as flores da terra – as mulheres, – rosas perfumadas que ocultam entre as folhas os seus espinhos.

Há as flores dos lábios – os sorrisos, lindas boninas que o menor sopro desfolha.

Há as flores do mar – as pérolas, – filhas do oceano que saem do seio das ondas para se aninharem no seio de uma mulher morena.

Há as flores da poesia – os versos, – às vezes tão cheios de perfumes e de sentimentos como a mais bela flor da primavera.

Há as flores d’alma – os sentimentos, – flores a que o coração serve de vaso, e as lágrimas de orvalho.

Há as flores da religião – as preces, – modestas violetas que perfumam a sombra e o retiro.

Há as flores da harmonia – os gorjeios – que brincam nos lábios mimosos de uma boquinha sedutora.

Há as flores do espírito – os ziguezagues, – que nascem sobre o papel como rosas silvestres e sem cultura.

(Não falo dos nossos ziguezagues, que, quando muito, são flores murchas).

Há enfim uma espécie de flor que é tão rara como a tulipa negra de Alexandre Dumas, como o cravo azul de Jean-Jacques, como o crisântemo azul de George Sand.

É a flor da vida, este sonho dourado, este puro ideal a que todos aspiram e de que tão poucos gozam.

Porque a flor da vida apenas vive um dia, como as rosas da manhã que a brisa da tarde desfolha.

E quando murcha, deixa dentro d’alma os seus perfumes, que são essas recordações queridas que nos sorriem ainda nos últimos tempos da existência.

Para uns a flor da vida nasce nos lábios de uma mulher; para outros no seio de um amigo.

Feliz do caminhante que à beira do bosque por onde passa colhe esta florzinha azul, espécie de urze cingida de uma coroa de espinhos.

Muitas vezes, depois de muitas fadigas, quando já tem as mãos feridas dos espinhos, e que vai colher a flor, ela se desfolha.

O vento soprou sobre ela, ou um verme roeu-lhe os estames.

Até aqui os meus leitores têm visto o mundo pelo prisma de uma flor; mas não se devem iludir com isso.

Algum velho político de cabelos brancos lhes dirá que isto são simples devaneios de uma imaginação exaltada.

A flor é a poesia, mas o fruto é a realidade, é a única verdade da vida.

Enquanto pois os poetas vivem à busca de flores, os homens sérios e graves, os homens práticos só tratam de colher os frutos.

Eles veem desabrochar as flores, exalar os seus perfumes, e esperam como o hortelão que chegue o outono e com ele o tempo da colheita.

E na verdade, a flor encerra sempre o germe de um fruto, de um pomo dourado, que outrora perdeu o homem, mas que é hoje a sua salvação.

A explicação disto me levaria muito longe, se eu não me lembrasse que até agora ainda não escrevi uma linha de revista, e ainda não dei aos meus leitores uma notícia curiosa.

Mas, a falar a verdade, não me agrada este papel de noticiador de coisas velhas, que o meu leitor todos os dias vê reproduzidas nos quatro jornais da corte, em primeira, segunda, e terceira edição.

Poderia dizer-lhe que depois da epidemia vai-se revelando uma outra epidemia de divertimentos, realmente assustadora.

Fala-se em clube artístico, em baile mascarado no teatro lírico, em passeios de máscaras pelas ruas, numa companhia francesa de vaudevilles, e em mil outras coisas que tornarão esta bela cidade do Rio de Janeiro um verdadeiro paraíso.

Neste tempo é que os folhetinistas baterão as asas de contentes, e não terão trabalho de escrever tiras de papel; preferirão ir ao baile, ao passeio, ao teatro, colher as flores de que hão de formar o seu bouquet de domingo.

Enquanto porém não chega esta bela quadra, essa primavera dos nossos salões, esse abril florido da nossa sociedade, não há remédio senão contentarmo-nos com o que temos, e em vez de rosas, apresentar ao leitor as folhas secas do ano.


A respeito de teatro, não falemos; é uma casa em cujo pórtico (digo pórtico figuradamente) a prudência parece ter gravado a inscrição de Dante: — Guarda e passa.

Se desprezais o aviso e entrais, daí a pouco tereis razão de arrepender-vos.

Sentai-vos em uma cadeira qualquer: a vossa direita está um gruísta; a vossa esquerda um chartonista.

Levanta-se o pano: representa-se a Norma ou a Fidanzata Corsa; canta uma das duas prima-donas, uma das duas prediletas do público.

— Bravo! grita o gruísta entusiasmado.

— Que exageração! diz o chartonista estirando o beiço.

— Divino!

— Oh! é demais!

— Sublime!

— Insuportável!

E assim neste crescendo continuam os dois dilettanti, de maneira que o vosso ouvido direito está sempre em completa oposição com o vosso ouvido esquerdo.

Cai o pano.

No intervalo conversai um pouco com os vossos vizinhos.

— É preciso ser completamente ignorante, diz o gruísta com o aplomb de um maestro, para não se apreciar a sublimidade do talento desta mulher!

Vós, meu leitor, que não quereis assinar um termo de ignorante, não tendes remédio senão confessar-vos gruísta, e em lugar de dois pontos de admiração dais três.

— Com efeito, é uma artista exímia!!!

Apenas acabais a palavra, quando o chartonista vos interroga do outro lado.

— É possível que um homem de gosto e de sentimento admita semelhantes exagerações?

Ficais embatucado; mas, se não quereis passar por homem de mau gosto, deveis imediatamente responder:

— Com efeito, não é natural.

Daí a um momento o vosso vizinho da direita retruca:

— Veja, todos os camarotes da 4a ordem estão vazios.

— É verdade!

Torna o vizinho esquerdo:

— Com esta chuva, que casa, hem!

— Boa!

Agora acrescentai a isto as desafinações do Dufrene, a rouquidão do Gentile, os cochilos do contra-regra, e fazei ideia do divertimento de uma noite de teatro.

Ao correr da pena. 2ª ed. São Paulo: Melhoramentos, s/d.



{Junho 7, 2010}   Olimpíada 7

A Rua do Ouvidor
Joaquim Manuel de Macedo

A Rua do Ouvidor contou diversas lojas de perfumarias, e, por consequência, devia ser a rua mais cheirosa, mais perfumada entre todas as da cidade do Rio de Janeiro.

E todavia não o era!…

Com efeito não havia nem há rua mais opulenta de aromas, de perfumes, de pastilhas odoríferas, de banhas e de pomadas de ótimo cheiro; mas tudo isso encerrado em vidrinhos, em frascos e em pequenas caixas bonitas que mantinham e mantêm a Rua do Ouvidor tão inodora como as outras de dia.

Atualmente de noite observa-se o mesmo fato.

Naquele tempo, porém, isto é, nos tempos do Demarais, e ainda depois, a Rua do Ouvidor, de fácil e reta comunicação com a praia, era uma das mais frequentadas pelos condutores dos repugnantes barris, das oito horas da noite até às dez.

A esses barris asquerosos o povo deu a denominação geralmente adotada de – tigres – pelo medo explicável que todos fugiam deles.

Esse ruim costume do passado me traz à memória informação falsa e ridícula que li, e caso infeliz e igualmente ridículo, de que fui testemunha ocular e nasal em 1839, no meu saudoso tempo de estudante.

A informação é a seguinte:

Um francês (viajante charlatão) passou pela cidade do Rio de Janeiro, e demorando-se nela alguns dias, ouviu dos patrícios da Rua do Ouvidor queixas dos incômodos tigres que frequentes passavam ali de noite. Sábio e consciencioso observador que era, o viajante tomou nota do ato, e poucos anos depois publicou, no seu livro de viagens, esta famosa notícia:

“Na cidade do Rio de Janeiro, capital do Império do Brasil, feras terríveis, os trigraves, vagam, durante a noite, pelas ruas, etc., etc.!!!”

E é assim que escreve a história!

O caso que observei foi desastroso, mas de natureza que fez rir a todos.

Pouco depois das oito horas da noite, um inglês, trajando casaca preta e gravata branca…

Entre parêntese.

Em 1839 ainda era de uso ordinário e comum a casaca; o reinado de paletó começou depois; muitos estudantes iam às aulas de casacas, e não havia senador nem deputado que se apresentasse desacasacado nas respectivas Câmaras: o paletó tornou-se eminentemente parlamentar de 1845 em diante.

Fechou-se o parênteses.

O inglês de chapéu de patente, casaca preta e gravata branca subia pela Rua do Ouvidor, quando encontrou um negro que descia, levando à cabeça um tigre para despejá-lo no mar.

O pobre africano ainda a tempo recuou um passo, mas o inglês que não sabia recuar avançou outro; o condutor do tigre encostou-se à parede que lhe ficava à mão direita, e o inglês supondo-se desconsiderado por um negro que lhe dava passo à esquerda pronunciou a ameaçadora palavra goodemi, e sem mais tir-te nem guar-te honrou com um soco britânico a face do africano, que perdendo o equilíbrio pelo ataque e pela dor, deixou cair o tigre para diante e naturalmente de boca para baixo.

Ah! Que não sei de nojo como o conte!

O Tigre ou o barril abismou em seu bojo o chapéu e a cabeça e inundou com o seu conteúdo a casaca preta, o colete e as calças do inglês.

O negro fugiu acelerado, e a vítima de sua própria imprudência, conseguindo livrar-se do barril, que o encapelara, lançou-se a correr atrás do africano, sacudindo o chapéu em estado indizível, e bradando furioso:

— Pegue ladron! Pegue ladron!…

Mas qual – pega ladron! -: todos se arredavam de inocente e malcheiroso negro que fugia, e ainda mais o inglês, tornado tigre pela inundação que recebera.

Era geral o coro de risadas na Rua do Ouvidor.

O inglês, perdendo enfim de vista o africano, completou o caso com um remate pelo menos tão ridículo como o seu desastre. Voltando rua acima, parou em frente de numeroso grupo de gente que testemunhara a cena, e ria-se dela.

Ainda hoje o estou vendo; o inglês parou, e sempre a sacudir o chapéu olhou iroso para o grupo e disse mas disse com orgulhosa gravidade britânica:

— Amanhã faz queixa a ministro da Inglaterra, e há de ter indenização de chapéu e de casaca perdidas.

Ah! Eu creio que então a melhor das risadas que romperam foi a minha gostosa, longa e repetida risada de estudante feliz e alegrão.

É inútil dizer que não houve questão diplomática. A Inglaterra ainda não se tinha feito representar no Brasil por Mr. Christie, o único capaz (depois do jantar) de exigir indenização do chapéu e da casaca que o patrício perdera.

Não foi este único desastre que os tigres ocasionaram, foram muitos e todos mais ou menos grotescos, e sei de um outro (além da encapelação do inglês) ocorrido na Rua do Carmo hoje Sete de Setembro, que de súbito desfez as mais doces esperanças do casamento inspirado e desejado por mútuo amor.

O namorado era estudante, meu colega e amigo; estava perdidamente apaixonado por uma viúva, viuvinha de dezoito anos, e linda como os amores.

Uma noite, a bela senhora estava à janela, e à luz de fronteiro lampião viu o namorado que, aproveitando o ponto do mais vivo clarão iluminador, lhe mostrava, levando-o ao nariz, um raminho de lindas flores, que ia enviar-lhe, quando nesse momento o cego apaixonado esbarrou com um condutor de tigre, e, embora não encapelado, foi quase tão infeliz como o inglês.

O pior do caso foi que a jovem adorada incorreu no erro quase inevitável de desatar a rir, e logo depois de fugir da janela por causa do mau cheiro de que se encheu a rua.

O namorado ressentiu-se do rir impiedoso da sua esperançosa e querida noiva; amoroso, porém, como estava, dois dias depois tornou a passar diante das queridas janelas.

No erro; a formosa viúva, ao ver o estudante, saudou-o doce, ternamente, mas levou o lenço a boca para dissimular o riso lembrador de ridículo infortúnio.

O estudante deu então solene cavaco, e não apareceu mais à bela viuvinha.

Um tigre matou aquele amor.

Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: Perseverança, 1878.



{Maio 28, 2010}   Olimpíada 6

Pavão
Rubem Braga

Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d’água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas. Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.

Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico.

Ai de ti, Copacabana. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1960.



{Maio 28, 2010}   Olimpíada 5

Cobrança
Moacyr Scliar

Ela abriu a janela e ali estava ele, diante da casa, caminhando de um lado para outro. Carregava um cartaz, cujos dizeres atraíam a atenção dos passantes: “Aqui mora uma devedora inadimplente.”

— Você não pode fazer isso comigo — protestou ela.

— Claro que posso — replicou ele. — Você comprou, não pagou. Você é uma devedora inadimplente. E eu sou cobrador. Por diversas vezes tentei lhe cobrar, você não pagou.

— Não paguei porque não tenho dinheiro. Esta crise…

— Já sei — ironizou ele. — Você vai me dizer que por causa daquele ataque lá em Nova York seus negócios ficaram prejudicados. Problema seu, ouviu? Problema seu. Meu problema é lhe cobrar. E é o que estou fazendo.

— Mas você podia fazer isso de uma forma mais discreta…

— Negativo. Já usei todas as formas discretas que podia. Falei com você, expliquei, avisei. Nada. Você fazia de conta que nada tinha a ver com o assunto. Minha paciência foi se esgotando, até que não me restou outro recurso: vou ficar aqui, carregando este cartaz, até você saldar sua dívida.

Neste momento começou a chuviscar.

— Você vai se molhar — advertiu ela. — Vai acabar ficando doente.

Ele riu, amargo:

— E daí? Se você está preocupada com minha saúde, pague o que deve.

— Posso lhe dar um guarda-chuva…

— Não quero. Tenho de carregar o cartaz, não um guarda-chuva.

Ela agora estava irritada:

— Acabe com isso, Aristides, e venha para dentro. Afinal, você é meu marido, você mora aqui.

— Sou seu marido — retrucou ele — e você é minha mulher, mas eu sou cobrador profissional e você é devedora. Eu a avisei: não compre essa geladeira, eu não ganho o suficiente para pagar as prestações. Mas não, você não me ouviu. E agora o pessoal lá da empresa de cobrança quer o dinheiro. O que quer você que eu faça? Que perca meu emprego? De jeito nenhum. Vou ficar aqui até você cumprir sua obrigação.

Chovia mais forte, agora. Borrada, a inscrição tornara-se ilegível. A ele, isso pouco importava: continuava andando de um lado para outro, diante da casa, carregando o seu cartaz.

O imaginário cotidiano. São Paulo: Global, 2001.



{Maio 24, 2010}   Olimpíada 2

O amor acaba
Paulo Mendes Campos

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania1 da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

1. No sentido literário, epifania é um momento privilegiado de revelação quando ocorre um evento que “ilumina” a vida da personagem.

O amor acaba – Crônicas líricas e existenciais. 2ª- ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.



{Maio 22, 2010}   Olimpíada 1

A Última Crônica

Fernando Sabino




A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever.

A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial.


Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: “assim eu quereria o meu último poema”. Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho — um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triang ular.

A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: “parabéns pra você, parabéns pra você…” Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura — ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de
bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido — vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.



Texto extraído do livro “A Companheira de Viagem”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1965, pág. 174.



{Abril 9, 2010}   Variação Linguística

Rap da Língua Portuguesa


Leitura, escrita, literatura, oralidade

A linguagem no ritmo da multiplicidade.

Vem com a gente, galera, vem pra conhecer

A linguagem em uso é o que vimos lhe trazer.


Na sala de aula era assim…

Aluno e professor. A língua? Regras sem fim…


– Ai, que texto grande!! Não consigo entender!!

– Vale quanto, professor? Cai na prova?

– Vou ter mesmo que ler?

– Ai, que coisa chata! Não tem figura? Olha o tamanho da letra…

– É em dupla, professor? Vou ter mesmo que fazer?


– Escreve direito, menino!

– Não assassina o português!

– Caneta na mão copiando a lição!

– Sentado na carteira!

– Isso não é lugar de brincadeira!


Essas são idéias que precisam mudar!

O livro didático público está aí pra inquietar

Para formar sem fazer conformar

Pois a realidade precisamos transformar.

Se liga, meu irmão,

No que vamos te dizer,

Somos todos iguais

E diferentes pra valer

‘Tamo’ na atividade!

‘Tamo’ aí pra valer!


Este é o Rap da Língua Portuguesa

Vem com a gente aprender

Usar a língua com destreza

Oralidade, leitura e escrita

Desenvolver o pensar sem maldade

Mas também sem ingenuidade.

E tudo ler, do romance ao cordel.

O que aceita o papel, ler.

Com todos os tipos de textos, aprender.

Experimentar da língua o potencial

Que tal?

É só entrar e abrir a janela-

-texto que dá para o pensamento

E logo a imaginação acelera

Aprimorando o movimento

Do aprender.


Vem com a gente, galera, vem pra conhecer

A proposta nova que vimos lhe trazer.

Leitura, escrita, literatura e oralidade

Para a construção de uma nova sociedade.


Você é o personagem principal

Do texto ao contexto

É só entrar e abrir a janela

Para os mundos da linguagem.

Ler é conhecer, pensar é refletir

Todos os modos de interagir.

Interagir com o mundo e sua multiplicidade:

O cinema, o trabalho, a TV, a música

A linguagem e toda sua variedade.

E pra ficar mais bacana, a interdisciplinaridade.

Interaja com os elementos

Ampliando seus conhecimentos.


Usar a língua pra falar

Usar a língua pra fiar

Afiar todo o seu ser.

Oralidade, leitura, escrita

Ajudam a fazer quem somos

Pois são as práticas com as quais lidamos.

Nós crescemos com a língua que usamos.


Eu erro, tu erras, nós erramos.

Errar não é pecado.

É, na verdade, tentativa de aprendizado.


Preconceito linguístico é roubada.

Melhor errar do que não fazer nada!


Leitura, escrita, literatura, oralidade

A linguagem no ritmo da multiplicidade

Vem com a gente, galera, vem pra conhecer

A linguagem em uso é o que vimos lhe trazer.


Fonte: http://pt.calameo.com/read/000005582b9d09d6cd3f5

Para saber mais: http://www.tvb.com.br/tvbnoticiascampinas/videos-exibe.asp?v=2671



{Março 12, 2010}  

Com licença poética


Quando nasci um anjo esbelto,

desses que tocam trombeta, anunciou:

vai carregar bandeira.

Cargo muito pesado pra mulher,

esta espécie ainda envergonhada.

Aceito os subterfúgios que me cabem,

sem precisar mentir.

Não sou tão feia que não possa casar,

acho o Rio de Janeiro uma beleza e

ora sim, ora não, creio em parto sem dor.

Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.

Inauguro linhagens, fundo reinos

– dor não é amargura.

Minha tristeza não tem pedigree,

já a minha vontade da alegria,

sua raiz vai ao meu mil avô.

Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.

Mulher é desdobrável. Eu sou.

Adélia Prado. In: Bagagem. 1976



Poema de sete faces


Quando nasci, um anjo torto

desses que vivem na sombra

disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens

que correm atrás de mulheres.

A tarde talvez fosse azul,

não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:

pernas brancas pretas amarelas.

Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.

Porém meus olhos

não perguntam nada.

O homem atrás do bigode

é sério, simples e forte.

Quase não conversa.

Tem poucos, raros amigos

o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste

se sabias que eu não era Deus,

se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo

se eu me chamasse Raimundo

seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo mundo vasto mundo,

mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer

mas essa lua

mas esse conhaque

botam a gente comovido como o diabo.

Carlos Drummond de Andrade. In: Alguma Poesia. 1930




{Fevereiro 12, 2010}   Minhas férias

Ao Marco Aurélio? rs

Meu sonho como professora é iniciar o ano com a famigerada redação.

Claro que não!!! Tá maluca? Depois vou ter que ler aquele monte de reclamação “só fiquei no computador, não fiz nada nas férias.”

Se os pais fizessem uma redação assim, imagino que diriam o quanto estão felizes pelo fato dos filhos e filhas voltarem para a escola. “Essa menina só fica no computador, não lê nada. Por isso escreve deste jeito. Esse piá só ficou na colheita feliz e no MSN. E agora tem o tal do Twitter. Escrevem de um jeito, que não sei como vai ser. Tenho até dó da professora de português.”

Já que é tabu pedir tal redação, aventurar-me-ei (adorei a mesóclise kaoksoakoakoakao) a falar das minhas férias. Sim, pois eles perguntam: “Profa, o que você fez nas férias?”

Gente, eu não fiz nada. Só fiquei no computador. Professora ganha pouco. Não viajei, fiquei no Twitter, no Orkut, no MSN. “Que horror, profa!” Mas colheita feliz, não! Me negooooo. E já contei pra vocês porquê: 1-Vou só ficar limpando a horta dos outros. 2- Vão ficar me roubando. 3- Não tem brócolis. 😀

Mas outra coisa que fiz também foi ler. E sempre me perguntam o que eu li. E não me perguntem se já li Sherlock Holmes, só por causa do filme, que vou fazer aquela cara (alunos novos estão perdoados de tal disparate! rs). Vou falar de um apenas, que me chegou de modo surpreendente e providencial.

Da corpografia: Ensaio sobre a língua/escrita na materialidade digital – Cristiane Dias

Este livro é um ensaio na qual a autora apresenta uma reflexão sobre a mudança de noção de língua e escritura com o uso do computador e das redes sociais. Ela considera a língua enquanto sistema de representação que guarda traços do nosso pensar e da nossa história. Numa perspectiva da análise do discurso, Dias parte da noção de materialidade da língua para conceituar a corpografia, considerando-se as tecnologias digitais.

A autora, por meio de análises realizadas em redes sociais da rede: salas de bate-papo, Orkut, MSN, fóruns de discussão do Orkut, discute como o corpo se inscreve, através do simulacro da língua, com a escrita na internet, materialmente. O corpo se materializa na escrita, no encontro do real da língua.

As relações dos sujeitos nestes espaços são estabelecidas através de laços de pertencimento pela e na linguagem transgredindo o sistema de representação da língua.

A apropriação de novas formas de escrita, características da linguagem de programação, denominada internetês, que tem gerado a polêmica em torno da subversão da escrita padrão, cria um modo de representação regulado por outros imaginários, com uma normatividade específica.

“Quando falo de um espaço-tempo tecnológico me refiro não somente ao espaço técnico e da velocidade da rede Internet, mas a uma cultura tecnológica que determina uma temporalidade outra no espaço da cidade, no nosso espaço de lazer, nas formas de divertimento, enfim nas práticas cotidianas do sujeito, no modo mesmo de constituição do sujeito nas suas relações afetivas. E isso não está de modo algum apartado da escrita e dos instrumentos/softwares utilizados para produzi-la, considerando que esse modo de escrever é parte da cultura tecnológica. É uma manifestação cultural da língua inserida numa discursividade que é a da tecnologia.”

Em uma das análises, de um Fórum do Orkut, da Comunidade Cibercultura – Pq vc naum escreve direito? a autora aponta a válida preocupação com a educação alfabética, com o futuro da escrita, além da inquietação crescente com invasão do mundo físico pelo mundo virtual, do temor de que este tipo de escrita, característica da digitalidade, acabe com a escrita padrão.

Mas Dias aponta que os modos são outros e há consciência de que o espaço virtual é diferente do espaço real e os laços são diferentes, pois os modos de subjetivação estabelecidos também são outros.

“Considero, portanto, o uso do internetês uma manifestação da língua na história, em seu real constitutivo. Por essa razão, tenho me preocupado em descrever e compreender o modo como essa manifestação se dá.”

Em outra análise, Sob o paradigma do simulacro, o ser outro da língua e do sujeito na escrita da sala de bate-papo, a autora coloca o internetês como criação.

“Se, por um lado, a gramática representa a língua, por outro lado, o modo de escritura do internetês não está comprometido com uma representação da língua, trata-se antes, de criação, simulacro.”

O simulacro não é o representável e nem representa numa relação direta, antes ele transpõe, rompe a relação do real representado e se funde num outra sistematicidade, aberta e fluida, tornando-se outro sistema de representação da língua, diferente do proposto pela gramática normativa.

Os modos de escritura no virtual criam outro da língua que não quer, propositadamente, valer-se da representação da língua padrão, quer criar, quer simular.

Com a introdução de novas mídias, movimento, instantaneidade e simultaneidade os modos de leitura também se modificam.

“Na tela do computador, o olho nunca está fixo no centro. Não há centro. Se o sujeito está fazendo uma busca, seu olho salta de hipertexto em hipertexto, como se buscasse sempre adiante ilhotas no meio do mar. Se o sujeito está teclando através de programas de conversa instantânea, seu olho aguarda sempre a próxima fala, que surge e desaparece na rolagem, empilhando-se às outras. Se ele tecla em salas de bate-papo, seu ‘eu’ projetado na escrita da tela perde-se sempre em meio aos ‘outros-eus’, e que se misturam a si mesmo. Não há centro, nem identidade fixa nas redes de relações na Internet, (…)”

E aqui eu abro um parêntese para falar de outra questão:

O suporte de leitura se modifica e parece-me claro que os modos também sofram alteração e tenhamos consequências na escrita. Alterações nos modos de leitura ocorreram com a mudança de suporte, de pensamento de uma época e de uma determinada cultura.

Do século IV d.C. até o século XIV, por exemplo, a leitura em voz alta era valorizada como forma de sociabilização e de entretenimento. Já no século XVIII e início do século XIX o conceito de leitura se confunde com a fala e a audição, e como a divulgação dos escritos entre os letrados tinha muito poder, os iletrados também conseguiram acesso aos textos por meio da leitura oral. Em um determinado período a leitura já foi considerada até um problema para a saúde física e mental.

Além das mudanças nos modos de ler, o livro também foi determinante para o desenvolvimento econômico de uma “sociedade do livro” – que envolve várias classes de produção e divulgação, desde o autor até os capistas – e cultural, com uma valorização do possuidor do letramento e do suporte do texto. Também há uma eleição de objetos artísticos e não artísticos, além é claro, da universalização do acesso ao livro pela escola.

O livro materializa o sistema econômico e o processo comunicativo que envolve pessoas, classes sociais, profissionais e tecnologia.

A mudança do suporte do texto requer aptidões para manipulá-lo, e isso aconteceu com outras áreas como o cinema que tirou espaço do teatro, a TV que limitou o cinema, a luta da TV paga com a TV aberta, enfim, as mudanças determinam rupturas e continuidades desde que ocorram adaptações. O próprio suporte tecnológico se altera e outros o superam como aconteceu com o vídeo cassete e o DVD.

E agora temos o computador e a Internet como suporte de leitura e escrita.  Talvez alguns escritores temam o fim da era do livro porque sua arte apresenta uma particularidade: a identificação do leitor com personagens e o desenvolvimento da imaginação.

Retornando à discussão que Cristiane Dias nos propõe, em uma análise Do laço sócio-afetivo nos scraps do ORKUT:

Como o sujeito dispõe apenas do sistema gráfico linguístico para manifestar sua afetividade no virtual, ele transpõe do real aquilo que sente na escrita e a corpografia, ou seja, a materialidade do corpo na escrita é o instrumento do qual o sujeito se vale para manifestação do que faria como real, e o impossível torna-se possível por meio da escrita materializada, por meio da simulação.

E através do seu estilo, do seu modo de escrever o internauta manifesta o seu afeto. Os modos de escrever no mundo digital produzem o sentido afetivo que se espera.

“Nesse sentido, pensar uma escrita produzida por afeto, seria pensar uma escrita que pelo estilo, desfaz uma organização da língua, do corpo, e isso, para Deleuze, se faz por um “tratamento sintático original”. É levar a língua ao limite, contorcer sua sintaxe, fazer vibrar suas linhas retas, num grito, num riso, num gosto.”

Gente, adorei esta última frase dela! rs

Quer mais? Leia mais: http://www.labeurb.unicamp.br/portal/pages/noticias/lerNoticia.lab?id=192&categoria=2

Portanto,

Simbora, começar mais um ano letivo…

E não me venham com textos cheios de vc, tc, pq, rs, :@, hsuahsuhasu, só porque eu estou no Orkut, no Twitter, no MSN, … Tem um monte de gente que quer passar em vestibular, quer aprender a escrever “corretamente”, quer entender soneto do Boca do Inferno (Greg. para os íntimos,  rs) e do Atílio também, então… Vamos separar as coisas.

Só deixo se for pra mandar cartinha fofa como a da Amanda! (Carta à moda antiga, mas parecia uma tela do MSN… linda! Arquivo pessoal.)


Essa é clássica das salas de aula. Pra curtir…


E essa é clássica da rede. Pra relembrar (e pq n?) rir um pouco! Quem quiser pode até chorar. Fala sério… rs


Desejo a todas e todos um ano letivo muito produtivo!


Para saber mais:

http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI3447701-EI8425,00-Lingua+ou+gramatica+eis+a+questao.html

http://br.dir.groups.yahoo.com/group/masonline/message/11795

http://pt.wikipedia.org/wiki/Gilles_Deleuze

http://pt.wikipedia.org/wiki/Jean_Baudrillard

http://www.cibercultura.org.br/tikiwiki/tiki-read_article.php?articleId=68

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u62541.shtmlhttp://loucademiabrasileiradeletras.blogspot.com/search?q=internetês



{Janeiro 25, 2010}   Literatura em foco

O que uma tradutora apaixonada por filmes nacionais e poesia do século XVIII, um estudante de matemática, um de agronomia e um de biomedicina têm em comum?

Aparentemente nada. Mas eles têm. Uma paixão. A paixão pela literatura, pela leitura, pelas múltiplas leituras. E dela, provavelmente, nasceu  o literaturaemfoco.com: de- li- ci- oso. Recheado de poesias, vídeos, contos, crônicas, imagens.

Podem me corrigir se eu estiver enganada, por favor.

Conheci através do twitter e hoje a Laís Azevedo postou esta maravilha do Lenine.

Amanhã tem análise da letra. Vamos aguardar.

Obrigada, Laís. Esta do Lenine eu não conhecia e simplesmente adorei.

Agora vou pensar no porquê. rs


Lenine – Magra

Composição: Lenine e Ivan Santos

Moça

Pernas de pinça

Alta

Corpo de lança

Magra

Olhos de corça

Leve

Toda cortiça

Passa

Como que nua

Calma

Finge que voa

Brasa

Chama na areia

Bela

Como eu queria

Magra, leve, calma

Toda ela bela

Tudo nela chama

Segue

Enquanto suspiro

Toda

Cor de tempero

Cheira

Um cheiro tão raro

Clara

Cura o escuro

Ela

Braços de linha

Dengo

Cheio de manha

Durmo

E peço que venha

Acordo

E sonho que é minha

Magra, leve, calma

Toda ela bela

Tudo nela chama


Confiram outras delícias no http://www.literaturaemfoco.com/



{Janeiro 24, 2010}   Danielle Cristina


Útero

Cansada de fotografia bonitinha. Belas imagens. De texto perfeitinho e ordinário. De vírgulas no lugar certo. De pontos onde devem ter pontos. De mais por mas. Há muitos inícios, alguns meios e raros fins. Ou será o contrário: sempre inícios e fins, e esqueço dos meios? Cansaaada… do livro pela metade, da conversa mole, do projeto de sonho, do estudo enrustido, da cor de cabelo inexpressiva, da geladeira vazia, do par de sapatos roubado, do choro esprimido entre dois sofás. E é só o par de olhos que sobra. Sempre. Ao menos. Vivo, inquisidor, confiante, irrequieto. Sim, capaz. Forte. Com a fuça enfrunhada nas costas de meu filho volto ao útero. Quente, escuro e hhhhhhhhh. O som do tudo. Volto e não estou porque, creio, toda vez que enfrunhada ali poderei regressar. Creio. Já tentei duas vezes e deu certo. Certeza de que é preciso agora terminar uma coisa pra que as outras possam ter meios. Só não lembro mais que coisa era essa. [ Só um desafio pra ver se alguém decifra cabeça de louco!]

Obrigada, Dani

Leia mais: http://daminhaaldeia.wordpress.com/

http://literaturadaminhaaldeia.wordpress.com/

http://ogarimpo.wordpress.com/

http://www.dc.art.br




{Janeiro 12, 2010}   A imagem

René Magritte

Minha professora de leitura e artes plásticas dizia que: “A arte é um tal fazer que enquanto faz inventa o por fazer e inventa o modo de fazer.”

Há quem diga que nada mais pode ser criado, inventado. Tudo é recriação. Tudo é releitura.

Platão afirma que a imagem é mimese. É a representação do real ausente tornando-o presente pela imitação. Há realidade no representado. Apesar da imitação ser inerte, a singularidade da reprodução torna-a viva, única.

Na leitura confusa de muitos, o representado se torna presente pela imagem.

Criar ou recriar, (re) inventar o por fazer e o modo de fazer, representando o ausente, tornando-o real, estimulando as emoções, convencendo (ou não) é também função do designer, além do artista plástico, do desenhista.

E em tempos de um fluxo intenso de imagens tão desenvolvidas (digitais, virtuais, 3D) na sociedade de consumo, Francis Wolff coloca que “a questão não é   “menos imagens!” Ou “mais imagens!” Mas menos imagens “transparentes” que pretendam mostrar o real escondendo-se!”

Que o real se mostre, e os planos sejam distintos.

E que o Alan continue com seu trabalho fantástico. (Adoorei ver você crescer tanto! rs)

 

Leia mais sobre o trabalho do Alan Amorim: http://www.alanamorim.com

Leia mais sobre mimese: http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/M/mimesis.htm

http://www.posgrap.ufs.br/periodicos/cadernos_ufs_filosofia/revistas/ARQ_cadernos_5/jovelina.pdf

Leia o Artigo de Francis Wolff. Por trás do espetáculo: o poder das imagens. in: http://books.google.com/books?id=nrUeir0OWn8C&printsec=frontcover&hl=pt-BR#v=onepage&q=&f=false

Leia mais sobre as imagens e o estímulo das emoções e o discurso persuasivo das imagens na internet: http://www.labcom.ubi.pt/agoranet/01/ferreira-ivone-psicologia-imagem-discurso-persuasivo-internet.pdf

Leia e veja mais:

http://www.louvre.fr

http://www.magrittemuseum.be



{Janeiro 1, 2010}   2010 com muito respeito!

contranarciso

A 7 spot ladybird, Coccinella 7-punctata, on a flowering plant Foto: Natural History Museum - British natural history


em mim

eu vejo

o outro

e outro

e outro

enfim dezenas

trens passando

vagões cheios de gente

centenas


o outro

que há em mim

é você

você

e você


assim como

eu estou em você

eu estou nele

em nós

e só quando

estamos em nós

estamos em paz

mesmo que estejamos a sós


Paulo Leminski – sangra:cio (1980)

Leia mais em 2010: http://pt.shvoong.com/books/speech/1900724-troca-impossível/

http://www.nhm.ac.uk/nature-online/british-natural-history/index.html

http://www.kakinet.com/caqui/leminski.htm



{Dezembro 30, 2009}   Retrospectiva 2009

Retrospectiva 2009

Pedroooo, devolva meu chip!!!

Cem anos de solidão? 50 bastam!

Você canta bem, acredite!

Eu sei essa parte: “Butterflies so crazy, mmm mmm”

Suco de kiwi, suco de abacaxi.

Nuvens, nuvens. Pastoreio. Fique à vontade.

O céu, as fotos, a geografia, cirrus, cúmulos-nimbos e a roupa no varal.

A mala. Amá-la. Amada. BRs. Vai e vem.

20 anos sem muros, um ano: Isto é construir!

Livros, livraria, textos, tecidos, tricotar, textura.

Macia.

Azeite de oliva, é claro.

Aulas, aulas, aulas.

Você sabe, eu não.

Pour toujours

O tempo, calor, chuva, previsão. Atraso.

Almoço! E não vem de garfo que hoje é sopa. Delícia.

Tá bom.

E não venha de garfo porque hoje o almoço é formal. Melhor ainda!

Cozinha, sala, música! Quarto…hummm… Bouf! Tchinnncc! Bing! Barrouf!

Quem dorme com um barulho desses?

“Down with sticks and up with bricks”

Pedrooooooo, devolva o meu chiiiiiip!

“Je m’en fous du passé

je repars à zéro.”



{Dezembro 9, 2009}   Múltiplas leituras

A princípio ele é um livro que causa estranhamento. Muito mais pela estratégia narrativa que pela ousadia em descrever personagens desagradáveis de nossa história.

Repleto de citações de dezenas de autores que vai de D. H. Lawrence a Sylvia Plath, Yourcenar a Fitzgerald, Kundera a Clarice Lispector, T. S. Eliot, Pasternak. O leitor se delicia a cada momento com a loucura das interrupções das chamadas númericas que permeiam os capítulos centrais.

Um trecho da exortação de Ignácio de Loyola Brandão que me instigou ainda mais a leitura.

“Carrero me lembra Henry Miller, com muito mais violência. Ele não poupa personagens, assim como não poupa o leitor. E no entanto, ficamos fascinados, não há como largar o livro, (…) Carrero é cheio de humanidade para com sua gente, com sua Recife. Está avisado. Se não quiser, não entre. Entrando, não há de se arrepender…”

Vamos a um trecho do livro:

“(…) Deveria acordar Leonardo? E Biba? Por que dormira no chão, embaixo da rede? Não daria atenção a Siegfried. Ele que fizesse o café quando acordasse.

“Os medíocres não conseguem ser derrotados, pois não sabem distinguir nem o que significa realmente vitória do que seja derrota. A verdade é que não atingem a condição plena do humano, por não terem idéias próprias, não se individualizam. Fazem parte de uma enorme e poderosa classe, constituem verdadeiras legiões, imbatíveis. Geralmente, não têm distinção nem pudor. Gostam de se exibir através de roupas (como cuidam do exterior), de cargos, de títulos, de jóias, de livros publicados de qualquer jeito, visando apenas notícias nos jornais e tardes de autógrafos. Confundem, quase sempre, espalhafato e berros da moda com elegância. Possuem uma incontrolável tendência para se tornarem macacos de auditório de qualquer idolozinho que apareça. Escancaram-se, apresentam, em toda oportunidade que apareça, o rol das coisas que conseguiram, dos objetos que possuem, por mais insignificantes que elas sejam. Poderia até inventar um lema para eles: quem não se exibe não existe. São os campeões, segundo Fernando Pessoa, poeta que se considerava derrotado até nos pequenos acontecimentos da vida.  É comum também essas pessoas perderem o sentido de lealdade. Leais apenas ao sucesso, representado em duas coisas fáceis: dinheiro e poder. Tudo mais podem trair: até eles mesmos.”

Ísis pensava nesse texto de Renato Carneiro Campos quanto entrou no quarto para acordar Leonardo. Via o alemão. Nu. Deitado na cama. Mais do que deitado: esparramado. Como se tivesse a consciência tranqüila. Como se pudesse dormir à solta. Um medíocre. Um traidor. Um aventureiro. No íntimo: um invejoso. Precisava de sucesso, mesmo com traições. Para manter a macheza. Para se fazer de invencível.” (p.87-88)

Leia mais: Somos pedras que se consomem. Raimundo Carrero. Iluminuras. 1995.

Veja se está disponível na Biblioteca Pública do Paraná pelo catálogo eletrônico, se não estiver, empreste outro livro e boas férias!

http://www.pergamum.bpp.pr.gov.br/biblioteca/index.php?resolution2=1024_1#posicao_dados_acervo



{Novembro 26, 2009}   Um contador de histórias!

Hoje reencontrei um amigo, contador de histórias (e algumas foram editadas num livro chamado Caixa de Ferramentas – Manual indispensável para o bom desempenho nos recursos humanos), e como foi bom conversar novamente com alguém que contribuiu tanto para a minha persistência.

Ele me deu a seguinte história pra ler:

O fruto da persistência

Um homem investe tudo o que tem numa pequena oficina. Trabalha dia e noite, inclusive dormindo na própria oficina. Para poder continuar nos negócios, empenha jóias da esposa. Quando apresentou o resultado final de seu trabalho a uma grande empresa, disseram-lhe que seu produto não atendia ao padrão de qualidade exigido. O homem desiste?

Não! Volta à escola por mais dois anos, sendo vítima da maior gozação dos seus colegas e de alguns professores que o chamavam de “visionário”. O homem desanima? Não!

Após dois anos, a empresa que o recusou finalmente fecha contrato com ele.

Durante a guerra, sua fábrica é bombardeada duas vezes, sendo que grande parte dela é destruída. O homem se desespera e desiste? Não! Reconstrói sua fábrica, mas um terremoto novamente a arrasa. Essa é a gota d’água e o homem desiste? Não!

Imediatamente após a guerra segue-se uma grande escassez de gasolina em todo o país e este homem não pode sair de automóvel nem para comprar comida para a família. Ele entra em pânico e desiste? Não! Criativo, ele adapta um pequeno motor à sua bicicleta e sai às ruas. Os vizinhos ficam maravilhados e todos querem também as chamadas “bicicletas motorizadas”.

A demanda por motores aumenta muito e logo ele fica sem mercadoria. Decide então montar uma fábrica para essa novíssima invenção. Como não tem capital, resolve pedir ajuda para mais de quinze mil lojas espalhadas pelo país. Como a ideia é boa, consegue apoio de mais ou menos cinco mil lojas, que lhe adiantam o capital necessário para a indústria.

Encurtando a história: Hoje a Honda Corporation é um dos maiores impérios da indústria automobilística japonesa, conhecida e respeitada no mundo inteiro. Tudo porque o Sr. Soichiro Honda, seu fundador, não se deixou abater pelos terríveis obstáculos que encontrou pela frente.

Se você, como infelizmente tem acontecido com muitas pessoas, adquiriu o hábito de viver reclamando e lamentando, experimente seguir sempre em frente, na busca dos seus objetivos sempre!

Obrigada, Chain, mais uma vez, por essa história (e muitas outras, e só quem passou por esse caminho sabe do que estou falando)!

Um caminho feliz se faz com persistência e uma alma agradecida! 🙂

Leia mais: (e não demora que o livro está acabando, rsrs)

Caixa de Ferramentas/Legrand. Belo Horizonte: Editora e Livraria do Chain, 2010.

Livraria do Chain

Rua General Carneiro, 441 (em frente à Reitoria)
Alto da Glória
(41) 3264-3484
De segunda a sexta das 8h às 19h30. Sábado das 8h às 18h.

A Livraria do Chain oferece livros nas categorias como administração e negócios, artes, auto-ajuda, beleza, lazer, hábitos sociais, bíblia, biografias, ciências biológicas e agrárias, ciências da saúde, ciências exatas e da terra, ciências sociais, direito, economia e contabilidade, educação, engenharia e arquitetura, esoterismo, esportes e educação física, filosofia, gastronomia, história, história em quadrinhos, informática, lingüística e dicionários, literatura, literatura infanto-juvenil, medicina integral, psicologia, religiões e doutrinas, RPG e guias de viagens. Com um atendimento todo especial!



{Novembro 22, 2009}   Prova – Medicina Evangélica 2010

RESSONÂNCIA MÓRFICA: A TEORIA DO CENTÉSIMO MACACO

Era uma vez duas ilhas habitadas pela mesma espécie de macaco. Depois de várias tentativas e erros, um esperto símio da ilha “A” descobre uma maneira engenhosa de quebrar cocos, para melhor aproveitar a água e a polpa. Por imitação, o procedimento se difunde entre seus companheiros, e logo uma população crítica de 99 macacos domina a nova metodologia. Quando o centésimo símio da ilha “A” aprende a técnica recém-descoberta, os macacos da ilha “B” começam, espontaneamente, a quebrar cocos da mesma maneira. Não houve nenhuma comunicação convencional entre as duas populações: o conhecimento simplesmente se incorporou aos hábitos da espécie.

Esse exemplo fictício ilustra uma das mais ousadas e instigantes idéias científicas da atualidade: a hipótese dos “campos mórficos”, proposta pelo biólogo inglês Rupert Sheldrake. Segundo o cientista, os campos mórficos são estruturas que se estendem no espaço-tempo e moldam a forma e o comportamento de todos os sistemas do mundo material. Átomos, moléculas, cristais, células, tecidos, órgãos, organismos, sociedades, ecossistemas, sistemas planetários, galáxias: cada uma dessas entidades estaria associada a um campo mórfico específico, uma espécie de inteligência ativa, estruturante, que faz com que um sistema seja um sistema, e não um mero ajuntamento de partes.[…]

Ao contrário dos campos físicos, os campos mórficos de Sheldrake não envolvem transmissão de energia. O que se transmite por meio deles é pura informação. É isso que nos mostra o exemplo dos macacos. Nele, o conhecimento adquirido por um conjunto de indivíduos agrega-se ao patrimônio coletivo, provocando um acréscimo de consciência que passa a ser compartilhado por toda a espécie. O processo responsável por essa coletivização da informação foi batizado por Sheldrake com o nome de “ressonância mórfica”. Por esta, as informações se propagam no interior do campo mórfico, alimentando uma espécie de memória coletiva, num processo difuso e não intencional. […]

Com postulados tão insólitos, não espanta que a hipótese de Sheldrake tenha causado polêmica. Em 1981, seu primeiro livro, A New Science of Life, foi recebido com reações diametralmente opostas: a New Scientist elogiava o trabalho como “importante pesquisa científica”; a Nature o considerava “o melhor candidato à fogueira em muitos anos”. Desta vez seria a ciência oficial jogando a ciência na fogueira, ao enfrentar uma hipótese que tromba com a concepção materialista dominante.

A corrente majoritária da Biologia vangloria-se de reduzir a atividade dos organismos vivos à mera interação físico-química entre moléculas e faz do DNA resposta para todos os mistérios da vida. A realidade, porém, é complexa demais para caber no molde reducionista oficial. Um exemplo é o processo de diferenciação e especialização celular que caracteriza o desenvolvimento embrionário. Como explicar que um aglomerado de células absolutamente iguais, dotadas do mesmo patrimônio genético, dê origem a um organismo complexo, no qual órgãos diferentes e especializados se formam, com precisão milimétrica, no lugar certo e no momento adequado? A Biologia reducionista diz que isso se deve à ativação ou inativação de genes específicos, fato que depende das interações de cada célula com as outras células e o meio ambiente. Segundo Sheldrake, é preciso estar completamente entorpecido por um sistema de crenças para engolir uma “explicação” dessas.

O código genético coordena a síntese das proteínas, determinando a seqüência exata dos aminoácidos na construção das macromoléculas. Mas “a maneira como as proteínas se distribuem dentro das células, as células nos tecidos, os tecidos nos órgãos, e os órgãos nos organismos, não está programada no código genético”, afirma Sheldrake. “Dados os genes corretos, e portanto as proteínas adequadas, supõe-se que o organismo, de alguma maneira, se monte automaticamente. É mais ou menos como enviar, na hora certa, os materiais corretos para um local de construção e esperar que a casa se construa espontaneamente.”

A morfogênese, isto é, a modelagem formal de sistemas biológicos seria ditada por um tipo particular de matriz determinada no campo mórfico, os “campos morfogenéticos”. Se as proteínas correspondem ao material de construção, os “campos morfogenéticos” desempenham um papel semelhante ao da planta do edifício. Ressalve-se apenas que a planta é um conjunto estático de informações; os campos morfogenéticos, ao contrário, estão em permanente interação e se transformam o tempo todo graças ao processo de ressonância mórfica.

Outro fenômeno que desafia a Biologia reducionista e conspira a favor da hipótese dos campos morfogenéticos é o da regeneração de organismos simples, que ocorre em espécies como a dos platelmintos, por exemplo. Se um animal desses for cortado em pedaços, cada parte se transforma num organismo completo, independentemente da forma como o verme é seccionado. O paradigma científico mecanicista, de base cartesiana, capota desastrosamente diante de um caso assim. Descartes concebia os animais como autômatos, e uma máquina perde a integridade e deixa de funcionar sem algumas de suas peças. Um organismo como o platelminto, ao contrário, parece estar associado a uma matriz invisível, que lhe permite regenerar a forma original mesmo que partes importantes sejam removidas.

(Adaptado de: ARANTES, José Tadeu. Disponível em: http://www.inconscientecoletivo.net)

 Leia mais:

Texto na íntegra:

http://inconscientecoletivo.net/category/fisica-quantica/

Prova do Vestibular – Faculdade Evangélica do Paraná – Medicina http://www.fepar.edu.br/fepar/images/provas/prova%20medicina%202009.pdf

Entrevista com Sheldrake:

http://www.ilea.ufrgs.br/episteme/portal/pdf/numero22/episteme22_hoffmann.pdf

Livros:

O Renascimento da Natureza: o Reflorescimento da Ciência e de Deus, de Rupert Sheldrake, Ed. Cultrix

Caos, Criatividade e o Retorno do Sagrado: Triálogos nas Fronteiras do Ocidente, de Ralph Abraham, Terence McKenna e Rupert Sheldrake, Ed. Cultrix/Pensamento

A New Science of Life: the Hypothesis of Morphic Resonance, de Rupert Sheldrake. Paperback.



Assim como os atletas e, dum modo geral, os que se ocupam da preparação física, não curam exclusivamente da sua boa forma e dos exercícios, mas igualmente do repouso feito a tempo (o qual, aliás, consideram uma parte importantíssima do treino), assim também me convenço de que os intelectuais, após um longo período de leituras sérias, têm toda a vantagem em relaxar o espírito, tornando-o, desse modo, mais forte para o trabalho futuro. 

Ora, o próprio repouso poderia até tornar-se-lhes agradável, se porventura se entregassem a um género de leitura que, além de proporcionar um entretenimento simples, como é o que resulta duma temática jocosa e divertida, suscitasse também alguns motivos de reflexão que não desconvém às musas — algo parecido, suponho, com o que porventura sentirão ao lerem esta minha obra. Efectivamente, o que nela os seduzirá reside não apenas na estranheza do tema, ou na minha intenção de divertir, ou no facto de ter inventado mentiras variadas que têm todo o ar de verosimilhança e de verdade, mas igualmente na circunstância de, à laia de paródia, cada passo da narrativa fazer alusão a certos poetas, prosadores e filósofos, que nos deixaram obras fantásticas e cheias de imaginação — autores esses cujos nomes eu explicitaria, se a simples leitura não bastasse para que tu próprio os identificasses.

[A título de exemplo:] Ctésias de Cnido, filho de Ctesioco, escreveu, a respeito da Índia e das suas curiosidades, coisas que nem ele próprio testemunhara, nem ao menos tinha ouvido da boca de pessoa fidedigna. Também Iambulo escreveu muita coisa maravilhosa sobre o grande mar [do sul], com o que fabricou uma mentira que não engana ninguém; mas a história que ele conta nem por isso é menos divertida. E muitos outros deram a sua preferência a temas do mesmo género, escrevendo sobre peregrinações e viagens que pretensamente teriam realizado e contando histórias de animais gigantescos e de povos selvagens com os seus estranhos costumes. Mas quem lhes serviu de guia e mestre neste tipo de charlatanice foi o Ulisses de Homero, o qual, na corte de Alcinoo, contou histórias de ventos aprisionados, de seres com um só olho, de canibais e de povos selvagens, enfim, de animais de muitas cabeças e da metamorfose dos seus companheiros por acção de drogas — tudo patranhas que ele impingiu aos parvos dos Feaces.

Em face de toda esta produção, não verberei por aí além os seus autores, porquanto verificava que tal era então habitual, mesmo entre os que faziam profissão de filósofos. Uma coisa, no entanto, me espantava neles: o facto de cuidarem que as mentiras que escreviam passariam despercebidas.

E foi assim que também eu, por vanglória, resolvi deixar à posteridade qualquer coisa do género, só para não ser o único a não beneficiar da faculdade de contar histórias fantásticas. E já que não tinha nada de verídico para narrar (na realidade, não me tinha sucedido nada digno de registo), virei-me para a mentira, mas uma mentira mais desculpável que a daqueles, porquanto numa coisa serei eu verdadeiro: ao confessar que minto. Desta forma, i. é, declarando que não digo nem uma ponta de verdade, creio ficar absolvido da acusação que porventura me façam. Escrevo, pois, sobre coisas que não testemunhei nem experimentei, e que não soube da boca doutrem; mais ainda: que não existem em absoluto e que, de qualquer forma, não são susceptíveis de ocorrer. Portanto, não deve o leitor dar o mínimo crédito às minhas histórias.

Ora bem: um dia, tendo partido das Colunas de Hércules, apontei ao oceano ocidental, navegando com vento favorável. Causa e objectivo desta viagem: a curiosidade intelectual, o desejo de saber como é o fim do oceano e que espécie de homens habitam do lado de lá.

Das narrativas verdadeiras  – Luciano de Samósata

Encontrei uma ótima tradução de Lucia Sano, de 2008. 

Leia mais: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8143/tde-19012009-160813/



Absurdo?

Não é não. Olha isso:

Cães servidos em restaurantes de SP eram abatidos a machadadas

http://www1.folha.uol.com.br/folha/videocasts/ult10038u651735.shtml

Que tal tomar cuidado com o que se come, onde se come?

Gostei muito da proposta de redação da UP (Universidade Positivo – Curitiba) para o vestibular 2010 que é a seguinte:

Construa um texto argumentativo, entre 15 e 20 linhas, que verse sobre o tema depreendido a partir dos textos a seguir:

          “Agenda cheia a da Dani. Uma vez por semana, ela deixa a cama cedo. Faz um desjejum, à base de barras de cereais e biscoitinhos de tomate seco. Escova os dentes, leva umas borrifadas de perfume francês e corre para o banco traseiro do carro, que será conduzido pelo motorista particular à meca do luxo paulistano, o shopping Iguatemi.

         Lá, submerge em um banho de hidratação, faz as unhas e chapinha. Não resiste às vitrines e sempre ganha um presente. Semana passada, foi uma gargantilha de cristal com patuá de prata e vidro de murano.

         Dani não perde em nada para os viciados nas benesses do consumo. Não fosse pelo detalhe de que não é uma moça, mas uma cadela da raça schnauzer gigante. A cadela é um retrato fiel de mais uma revolução por que passa o mercado pet. (…)”

                            (Roberto de Oliveira, Folha de São Paulo, 30 set. 2007)

“Centros urbanos, como São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba, concentram uma parcela rica de animais domésticos. Essa elite responde por 4% do mercado nacional. Parece pouco, mas é o setor mais lucrativo.

         Nos EUA, esse número sobe para 70%. No Japão, principais importadores, 90%. No Brasil, economia em expansão, aumento de renda e dólar estável são alguns dos fatores que explicam o consumismo no mundo pet.

         Mas não é só isso. Antes, o cão era simplesmente um cão, mas “a partir da metade dos anos 90, passou a integrante da família e, atualmente, é encarado como um filho”, afirma José Edson, diretor da Anfal Pet.

         Para Elizabeth MacGregor, da WSPA (ONG internacional de defesa dos animais), a mudança de comportamento é paradoxal. O fator positivo, diz, é que o pet deixou de ser objeto útil para determinadas funções, como a caça, para ser tratado como um integrante da família.

         “Muitos pets são vistos como objeto de consumo. Os donos não querem um cão com cheiro ou que lata. Preferem um bicho minúsculo que, se possível, nem pareça um animal de verdade.”

         Colar e chapinha, sem bom senso humano, podem aniquilar a identidade do animal. Que se torna híbrido, nem humano nem bicho.”

                            (Roberto de Oliveira, Folha de São Paulo, 30 set. 2007)

 Rock da cachorra, Eduardo Dusek (fragmentos)

 Troque seu cachorro

Por uma criança pobre

Sem parente, sem carinho

Sem rango, sem cobre

Deixe na história de sua vida

Uma notícia nobre…

Tem muita gente por aí

Que tá querendo levar

Uma vida de cão

Eu conheço um garotinho

Que queria ter nascido

Pastor-alemão

Esse é o rock despedida

Prá minha cachorrinha

Chamada “sua-mãe”…

Seja mais humano

Seja menos canino

Dê guarita pro cachorro

Mas também dê pro menino

Se não um dia desse você

Vai amanhecer latindo

Uau! Uau! Uau!…

Pra quem não conhece a música, aí está:

Na contramão… rsrs

E a foto (a pedidos) da minha cachorra. Tratada exatamente tal como ela é. Com comida, passeios e sem excessos.

Untitled 2

Pode dizer que ela é feia. Não ligo. É amada!



Muitos autores defendem o trabalho com textos na escola a partir da abordagem do Gênero Textual e da Tipologia Textual.

Cada tipo de texto é apropriado para um tipo de interação específica. Deixar o aluno restrito a apenas alguns tipos de texto é fazer com que ele só tenha recursos para atuar comunicativamente em alguns casos, tornando-se incapaz, ou pouco capaz, em outros.

Luiz Antônio Marcuschi afirma que em todos os gêneros os tipos se realizam, ocorrendo, muitas vezes, o mesmo gênero sendo realizado em dois ou mais tipos. Ele chama essa miscelânea de tipos presentes em um gênero de heterogeneidade tipológica.

O primeiro trabalho que recebi para o desafio que foi proposto aos alunos é de autoria de Marco Aurélio Svitalski, aluno do 1º ano do Ensino Médio.

Achei lindo!

Obrigada, Marco Aurélio.

Confiram o blog do autor em: www.marconopapo.wordpress.com

A trilha sonora é de Ademir Plá.

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Foto de Diogo Saito Takeuchi

 

VAMOS AO VÍDEO:

 

Leia mais… http://billbandalha.multiply.com/journal/item/226

http://www.slideshare.net/luciane239/generos-textuais-presentation

MARCUSCHI, L. A. “Gêneros textos: definição e funcionalidade” In: DIONÍSIO, A. P.; MACHADO, A. R.; BEZERRA, M. A. (orgs.) Gêneros textuais & ensino. Rio de Janeiro: Lucerna.



{Novembro 8, 2009}   Tv Escola

ximaaaa

“O Colégio Estadual Julio Symanski, em Araucária, tem possibilitado que os 2,4 mil alunos recebam informações e notícias de maneira diferente. Há um ano foi montado um estúdio de TV na escola. Os recados da direção e os debates dos candidatos ao grêmio estudantil são produzidos no estúdio e transmitidos ao mesmo tempo nas TVs multimídia das 23 salas de aula.

(…)

O funcionário da escola Luiz Antonio Biscaia concilia o trabalho de rotina com a função de locutor e apresentador da TV. Segundo ele, os alunos começaram a interagir melhor na busca de melhorias para a escola. “Os debates dos alunos que concorrem ao grêmio são aguardados com euforia”, destaca.Os candidatos ao grêmio estudantil já participaram de três debates ao vivo. As 60 turmas puderam acompanhar as propostas das quatro chapas que disputam a eleição. Para que os alunos surdos acompanhem os debates, uma intérprete de Língua Brasileira de Sinais (Libras), traduz em sinais o que está sendo discutido.”

Parabenizo os candidatos ao grêmio estudantil pelo debate e a todos os alunos, pois a discussão logo após nos conduziu a uma importante reflexão sobre o que é cidadania.

Leia mais… http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/



Depois de alguma procura, encontrei um texto muito interessante que pode beneficiar mais de 2.300 pessoas diretamente de acordo com dados da COPEL,  pois há no Paraná 2.309 unidades consumidoras cadastradas com equipamentos de sobrevida, que deveriam ser atendidas por esta legislação.

Os gastos deste grupo com energia elétrica são de R$ 164.992,57, incluindo os impostos.
 

Quais são os equipamentos considerados de sobrevida?

São considerados equipamentos de sobrevida:

  • Respiradores ou ventilador pulmonar;

  • Aspiradores de secreções;

  • Equipamentos de Diálise Peritoneal Automática, que podem ser encontrados nas seguintes modalidades: Diálise Peritoneal Ambulatorial Contínua (CAPD), Diálise Peritoneal Noturna (NIPD) e Diálise Peritoneal Contínua por Cicladora (CCPD);

  • Aparelho de Quimioterapia;

  • Concentrador de Oxigênio;

  • Bomba de infusão;

  • Oxímetro;

  • CPAP e BIPAP;

  • Situações especiais com base na avaliação médica.

 

LEI Nº 14087 – 11/09/2003

  Publicado no Diário Oficial Nº 6561 de 12/09/2003

 A Assembléia Legislativa do Estado do Paraná decretou e eu sanciono a seguinte lei:

 Programa “LUZ FRATERNA”

 Art. 1º. Fica o Poder Executivo autorizado a efetuar o pagamento do consumo de energia elétrica e dos encargos decorrentes desse serviço dos consumidores beneficiários de algum dos Programas Sociais do Governo Federal relacionados no art. 2º desta lei, ou cadastrados no Programa Social da COPEL, cujos imóveis sejam utilizados exclusivamente para fins residenciais da área urbana e rural e cujo consumo de energia no mês não ultrapasse 100 (cem) kWh (kilowatts-hora).

 Parágrafo único. Ficam excluídas do benefício as unidades consumidoras que:

I – apresentarem sazonalidade de consumo;

II – não estiverem ocupadas;

III – não se caracterizarem como residência permanente, tais como sem consumo e de veranistas.

 Art. 2º. Para beneficiar-se do Programa “Luz Fraterna” o consumidor deverá atender, cumulativamente, as seguintes condições:

a) Classe residencial:

I – ser da subclasse residencial baixa renda com atendimento monofásico, conforme a Lei Federal nº 10.438, de 26.04.2002, regulamentada pelas Resoluções ANEEL nºs 246, de 30.04.2002 e 485, de 29.08.2002;

II – estar o titular da unidade consumidora cadastrado no Programa Social da COPEL, ou beneficiário de algum dos Programas Sociais do Governo Federal, tais como Bolsa Escola, Bolsa Alimentação e Vale Gás;

III – ter consumo até 100 kWh/mês;

IV – não possuir mais de uma conta cadastrada em seu nome;

 b) Classe rural:

I – ser monofásico ou bifásico com disjuntor até 50 amperes;

II – ter consumo mensal até 100 kWh/mês;

III – não possuir mais de uma conta cadastrada em seu nome.

 c) Classe de consumidores residenciais dependentes de sobrevida:

 I – a unidade consumidora deverá estar classificada como residencial;

 II – o dependente do equipamento de sobrevida deverá ser o próprio titular da unidade consumidora ou qualquer pessoa que comprove depender economicamente deste;

 III – a dependência de uso de equipamento de sobrevida deverá ser comprovada através de declaração oficial das Secretarias de Saúde ou de outro órgão competente no município, em que conste o nome do médico-perito, número do CRM, o CID e a descrição dos equipamentos necessários;

 VI – ter consumo de até 400 (quatrocentos) kwh/mês além do consumo pelo uso dos equipamentos de sobrevida.

 Parágrafo único. Os benefícios da alínea “c” destinam-se, exclusivamente, à unidade consumidora em que o dependente do equipamento reside.”

 LEI Nº 15922 – 12/08/2008 – acresce a alínea “c”

Publicado no Diário Oficial Nº 7783 de 12/08/2008

 Art. 3º. O ressarcimento às concessionárias, autorizadas e permissionárias de energia elétrica situadas no Estado do Paraná dos valores correspondentes ao benefício referido no art. 1º, será efetuado mediante dotação no orçamento geral do Estado.

 Art. 4º. Esta Lei entrará em vigor em 30 (trinta) dias após a data de sua publicação, ficando revogadas a Lei nº 11.897, de 01.12.97 e demais disposições em contrário.

 PALÁCIO DO GOVERNO EM CURITIBA, em 11 de setembro de 2003.

 Roberto Requião

Governador do Estado

 Caíto Quintana

Chefe da Casa Civil

Leia mais na fonte: http://www.copel.com/hpcopel/root/nivel2.jsp?endereco=%2Fhpcopel%2Froot%2Fpagcopel2.nsf%2Fdocs%2F75FF0B19D8E1EEB4032575B0004DC6A4

http://www.saude.caop.mp.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=233



{Novembro 4, 2009}   Múltiplas Leituras

GetAttachmentwrthrDescobrir como o acervo de uma biblioteca escolar pode contribuir para a formação leitores não é tarefa fácil. No entanto, ela é uma reflexão necessária para implantar e transformar as práticas de leituras na escola, pois se faz necessária a criação de condições concretas de leitura e a trajetória escolar é privilegiada com situações para que elas sejam criadas.

É recorrente a discussão da importância da leitura de livros, e digo leitura de livros e não de outros suportes – talvez pela falta de reconhecimento de que a leitura se processa nos mais diversos suportes, ou pela tradição dos livros que perdura séculos – nos corredores da escola, nos intervalos, nas reuniões pedagógicas, de toda instituição preocupada com uma formação integral de seus alunos.

Pais, pedagogos, coordenadores, professores e a sociedade em geral discutem a crise da leitura. E essa crise, conforme prevê Silva (1996, p. 12) se dá pela falta de criação de condições de leituras. E

                        “(…) A tão-propalada “crise da leitura” não é uma doença destas últimas décadas e nem deste século: ela vem sendo reproduzida desde o período colonial, juntamente com a reprodução do analfabetismo, com a falta de bibliotecas e com a inexistência de políticas concretas para a popularização do livro.”

A leitura é instrumento que possibilita a descoberta e ampliação das representações do mundo e através de práticas de leitura o homem pode se conscientizar de sua condição social, cultural e histórica para uma “superação do status quo individual ou coletivo através do exercício da crítica dos fatos, das representações tidas como verdadeiras.” (SILVA, 1996, p. 19)

Além disso, pela leitura se dá a construção do imaginário. Os componentes do imaginário, que são tecidos com fios, invisíveis ou não, advindos do simbólico, estabelecem uma relação com o que podemos chamar de mundo real, e como tal é complementar e dialógica, e a instituição de um imaginário pode estar investida de mais “realidade” do que o próprio real.

Referências

NÓBREGA, Nanci Gonçalves. Tapete Mágico. Leituras compartilhadas. Ano 03. fascículo 09.

___. Acervo, Memória, Reserva Simbólica. Saberes. Curitiba. 2006.

SILVA, Ezequiel Theodoro da. A produção da leitura na escola. Pesquisas x Propostas. Ática, São Paulo, 2000.

___. Leitura na escola e na biblioteca. 4. Ed. Campinas, Ed. Papirus, 1996.



{Outubro 22, 2009}   Primavera!

1flor58Ela é bela

A Natureza toda formosa

como sempre glamurosa

Entre as 4 estações

você é que marca os corações.

Sempre colorida e bela

eu me admiro

com sua beleza pela minha janela

observando a perfeição da natureza.

Você chega alegrando

as flores dos bosques e campos

todos saem para te prestigiar

você colore o quintal do nosso lar

Primavera, verão, outono e inveno

você é o que eu mais espero!

Gabriela e Aline 1ºk



{Outubro 22, 2009}   Primavera!

CA55TVC8CAQ6KVENCAWLOQ8XCAEQXF3TCAH9FUA0CACU0JOCCA24M0XSCAULHXKBCAAK8CXHCAD4Q49LCA3PUAAOCA1MXL4LCAO60TGBCAU8GSRXCAK6G1O2CA2CSE1DCAYE63HOCA2NKMEVCAMYPD29A primavera chegou e nos contagiou

Sua luz nos traz alegria

seu teor trouxe amor

as árvores assombram nosso viver

aflora nossas vidas com prazer

a mágoa nos faz esquecer

e o ódio para nunca mais voltar

lindo dia, lindas flores num campo sem dores

a primavera traz um lindo luar

E o céu faz brilhar

Enfim quando ela chega

A primavera me aconchega

 

Henrique Jr., Nilson, Rodrigo 1º J



{Outubro 21, 2009}   Primavera!

floresAs flores lá fora no jardim

alegram meu dia assim

O sol que irradia

Ilumina meu dia-a-dia

Se eu faço um desejo

Peço logo um beijo

Olho na janela e vejo um pássaro voando

Paro e penso: Eu estou amando

A chuva quando cai no telhado

Deixa o jardim todo enxarcado 

Quando vem a escuridão

Acelera o coração

Quando saiu na janela

Vejo logo a primavera.

 

Ana Caroline, Emily e Kaoana 1ºK



{Outubro 21, 2009}   Primavera!

Primavera, primavera

Quando eu abro a janela

Me encanto com a sua beleza tão bela

Primavera, primavera

Quando te vejo sinto a emoção

De que logo vem o verão

Primavera, primavera

As suas flores coloridas

Encantam as nossas vidas

Primavera, primavera

Quando estou junto a ti, quero que não tenha fim

Pois a sua beleza se iguala a mim

Primavera, primavera

Somente esse poema para expressar algo assim

 

Autores, por favor, identifiquem-se!



et cetera