o BloG dA pRofA











{Junho 15, 2012}   A assembleia dos ratos
Imagem

Ilustração: Gustave Doré

A assembléia dos ratos

Um gato de nome Faro-Fino deu de fazer tal destroço na rataria duma casa velha que os sobreviventes, sem ânimo de sair das tocas, estavam a ponto de morrer de fome.

Tornando-se muito sério o caso, resolveram reunir-se em assembléia para o estudo da questão.  Aguardaram para isso certa noite em que Faro-Fino andava aos mios pelo telhado, fazendo sonetos à lua.

– Acho — disse um deles — que o meio de nos defendermos de Faro-Fino é lhe atarmos um guizo ao pescoço. Assim que ele se aproxime, o guizo o denuncia e pomo-nos ao fresco a tempo.

Palmas e bravos saudaram a luminosa idéia.  O projeto foi aprovado com delírio. Só votou contra, um rato casmurro, que pediu a palavra e disse — Está tudo muito direito.  Mas quem vai amarrarar o guizo no pescoço de Faro-Fino?

Silêncio geral.  Um desculpou-se por não saber dar nó.  Outro, porque não era tolo.  Todos, porque não tinham coragem. E a assembléia dissolveu-se no meio de geral consternação.

Dizer é fácil; fazer é que são elas!

Em: Fábulas, Monteiro Lobato, São Paulo, Ed. Brasiliense:1966, 20ª edição.

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{Dezembro 9, 2011}   Cecília Meireles

Fio

 

No fio da respiração,

rola a minha vida monótona,

rola o peso do meu coração.

 

Tu não vês o jogo perdendo-se

como as palavras de uma canção.

 

Passas longe, entre nuvens rápidas,

com tantas estrelas na mão…

 

— Para que serve o fio trêmulo

em que rola o meu coração?

Para saber mais: http://www.filologia.org.br/revista/artigo/6(16)14-25.html

😉



{Setembro 20, 2011}   Urupês – Monteiro Lobato

O Engraçado Arrependido

Francisco Teixeira Pontes tinha 32 anos
Todos riam de suas piadas sem parar
Ele era um comediante natural
Mas um dia, com sua fama resolveu acabar

Ele queria virar um homem sério
Queria ser alguém como qualquer um
Tinha cansado da própria vida
Queria ser um homem comum

Tentou vários empregos
Mas com “qua qua qua” era respondido
Riam apenas de citar seu nome
Achou que já estava perdido

Então foi que ele soube de um emprego
Um de coletor federal
Mas era ocupado pelo Major Bentes
Que tinha um aneurisma fatal

Francisco contratou seu primo
E este lhe prometeu o cargo de coletor
Seria avisado logo após da morte do Major
Então Pontes planejou o assassinato com ardor

Sendo um comediante pensou
“Vou matar o Major de rir!”
O aneurisma não iria aguentar
Fazê-lo dar risada, ninguém pode me proibir

Indo a coletoria fazendo pequenos trabalhos
Conquistou o Major de pouco em pouco
Então finalmente Pontes o convidou para jantar
Para tentar fazê-lo rir como louco

Mas o plano não deu muito certo
O Major tinha cuidado com o aneurisma
Ria apenas timidamente
Pontes tinha que melhorar seu carisma

Pontes, porem pensou
“Todo homem tem seu ponto fraco”

Os do Major eram ingleses e frades
Enfim conseguiria por o velho no buraco

Depois de muita preparação
Criou uma anedota de um inglês, sua mulher e dois frades
Se o Major sobrevivesse
Prometeu dar um tiro na cabeça com toda a vontade

Então em um almoço no carnaval
Pontes começou a contar a piada
Major Bentes estava atento e adorando
E o momento do fim se aproximava

Pontes finalizou sua obra-prima
Em um ato rápido e cômico
Major Bentes riu mais alto que todos
Com um riso tragicômico

O Major caiu de cara no peixe e ali morreu
Apesar de ser planejado, Pontes se chocou
O assassino indireto correu pra casa
E lá por dias se trancou

Seu primo o ligou com péssimas notícias
A vaga de coletor já estava tomada
Pontes além de chocado, ficou sem emprego
Desejou nunca ter feito aquela piada

Pontes foi achado enforcado por uma ceroula
Um mês depois do assassinato do Major
Foi motivo de piada para toda a cidade
Então se ouvia, novamente, “quás” ao seu redor

 

http://prezi.com/vfwkhdyuzzb7/o-engracado-arrependido/

 

 

Trabalho maravilindo realizado pelas alunas Hevelin Sato, Maria Victória Garcez, Ana Lucia Faucz, Paola Gomes e Vitor Emanuel.

Parabéns! 



{Agosto 25, 2011}   LeMinsKi aNo

Aqui tou eu pra te proteger dos perigos da noite, do dia

Sou fogo, sou terra, sou água, sou gente, 

eu também sou filha de Santa Maria

Desencontrários (Paulo Leminski)

   Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
   Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
   Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.

   Mandei a frase sonhar,
e ela foi num labirinto.
   Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
   para conquistar um império extinto.

Dia 24/08 (quarta-feira), o escritor curitibano Paulo Leminski completaria 67 anos. Para comemorar a data, a Biblioteca Pública do Paraná (BPP) e o Museu da Imagem e do Som (MIS-PR) abrem a exposição “Clics em Curitiba”, com 24 painéis de fotos de Jack Pires associadas a poemas de Leminski, considerado um dos escritores brasileiros mais importantes da segunda metade do século 20.

As imagens e os textos foram originalmente publicados no livro “Quarenta Clics em Curitiba”, lançado pela dupla em 1976. A abertura da mostra é às 19h, em seguida, às 19h30, será exibido no Auditório Paul Garfunkel o documentário “Ervilha da fantasia – uma ópera Paulo Leminskiana”, do cineasta Werner Schumann

A programação ainda conta com a leitura dramática do texto “O dia em que morreu Leminski”, escrito pelo jornalista e dramaturgo Rogério Viana, também no auditório, às 17h30. A leitura é dirigida por Léo Moita e tem participação dos atores Felipe Custódio, Val Salles e Naiara Bastos.

Jack Pires foi um fotógrafo paulista radicado durante muitos anos em Curitiba, onde desenvolveu diversas atividades na Fundação Cultural de Curitiba e trabalhou em importantes estúdios fotográficos. Realizou, nos anos 1970 e 1980, valiosos registros do cotidiano da capital paranaense, num estilo que foi comparado ao de Henri Cartier-Bresson. Em 1976 convidou Leminski para associar seus poemas a diversos flagrantes registradas nas praças e ruas da cidade. O resultado é um livro de grande valor artístico e documental. [imprensa@seec.pr.gov.br]

Serviço:

Clics de Curitiba

Exposição de fotos do livro “Quarenta Clics em Curitiba”

A partir de 24 de agosto, às 19h

Visitação até 24 de setembro – Hall de entrada

Biblioteca Pública do Paraná – Rua Cândido Lopes, 133, Centro, Curitiba.

Entrada franca

Mais informações: (41) 3221-4917

Veja mais: http://www.youtube.com/watch?v=MHkya98tKgs

Leia mais: 

http://pauloleminskipoemas.blogspot.com/

http://www.releituras.com/pleminski_menu.asp

http://www.kakinet.com/caqui/leminski.htm



{Agosto 22, 2011}   Sedução Poética 2011

Cora Coralina

Doceira por vocação, poetisa por natureza 

122 anos

Não sei se a vida é curta ou longa para nós,

mas sei que nada do que vivemos tem sentido

se não tocarmos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:

colo que acolhe, braço que envolve,

palavra que conforta, silêncio que respeita,

alegria que contagia, lágrima que corre,

olhar que acaricia, desejo que sacia,

amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,

é o que dá sentido à vida.

É o que faz com que ela não seja nem curta,

nem longa demais,

mas que seja intensa,

verdadeira, pura enquanto durar.

Feliz aquele que transfere o que sabe

e aprende o que ensina.

Assim eu vejo a vida

A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver


/


Leia mais: http://www.paralerepensar.com.br/coracoralina.htm

http://www.senado.gov.br/noticias/fibra-de-cora-coralina-e-lembrada-como-exemplo-em-sessao-no-senado-nesta-terca.aspx

http://www.vilaboadegoias.com.br/cora_coralina/



{Agosto 7, 2011}   Sedução poética

Discurso – Cecília Meireles

E aqui estou, cantando. 

Um poeta é sempre irmão do vento e da água: 
deixa seu ritmo por onde passa. 

Venho de longe e vou para longe: 
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho 
e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes andaram. 

Também procurei no céu a indicação de uma trajetória, 
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel. 

Pois aqui estou, cantando. 

Se eu nem sei onde estou, 
como posso esperar que algum ouvido me escute? 

Ah! se eu nem sei quem sou, 
como posso esperar que venha alguém gostar de mim?
(Meireles, 1982, p.17)

 

Arte Poética 

Mirar el río hecho de tiempo y agua
Y recordar que el tiempo es otro río,
Saber que nos perdemos como el río
Y que los rostros pasan como el agua.

Sentir que la vigilia es otro sueño
Que sueña no soñar y que la muerte
Que teme nuestra carne es esa muerte
De cada noche, que se llama sueño.

 

Ver en el día o en el año un símbolo
De los días del hombre y de sus años,
Convertir el ultraje de los años
En una música, un rumor y un símbolo,

Ver en la muerte el sueño, en el ocaso
Un triste oro, tal es la poesía
Que es inmortal y pobre. La poesía
Vuelve como la aurora y el ocaso.

A veces en las tardes una cara
Nos mira desde el fondo de un espejo;
El arte debe ser como ese espejo
Que nos revela nuestra propia cara.

Cuentan que Ulises, harto de prodigios,
Lloró de amor al divisar su Itaca
Verde y humilde. El arte es esa Itaca
De verde eternidad, no de prodigios.

También es como el río interminable
Que pasa y queda y es cristal de un mismo
Heráclito inconstante, que es el mismo
Y es otro, como el río interminable.

Jorge Luis Borges (1960)
Leia mais: http://www.webartigos.com/articles/61658/1/A-METAPOESIA-EM-VIAGEM-DE-CECILIA-MEIRELES/pagina1.html#ixzz1UJ3UaGO5



{Agosto 4, 2011}   Eu quero ser feliz agora…

Se alguém disser pra você não cantar

Deixar seu sonho ali pro um outra hora

Que a segurança exige medo
Que quem tem medo Deus adora

Se alguém disser pra você não dançar
Que nessa festa você tá de fora
Que você volte pro rebanho.
Não acredite, grite, sem demora…

Eu quero ser feliz Agora 

Se alguém vier com papo perigoso de dizer que é preciso paciência pra viver
Que andando ali quieto
Comportado, limitado
Só coitado, você não vai se perder
Que manso imitando uma boiada, você vai boca fechada pro curral sem merecer
Que Deus só manda ajuda a quem se ferra, e quando o guarda-chuva emperra certamente vai chover,
Se joga na primeira ousadia, que tá pra nascer o dia do futuro que te adora.
E bota o microfone na lapela, olha pra vida e diz pra ela…

Eu quero ser feliz agora 

 



{Agosto 2, 2011}   Pequeno Cineasta

Foram prorrogadas as inscrições para o 2o.Festival Internacional Pequeno Cineasta. Os pequenos realizadores interessados devem se inscrever até 08 de agosto de 2011.

Crianças e jovens, de 08 a 17 anos, do mundo todo, podem inscrever seus filmes. Serão aceitos filmes de até 10 minutos de duração, nos gêneros de ficção, documentário, experimental e animação. A inscrição é gratuita.

O Festival será realizado em novembro deste ano na cidade do Rio de Janeiro. Além das Mostras Competitivas, haverá espaço para debates com profissionais das áreas de Cinema e Educação. Maiores informações estão disponíveis no site: www.pequenocineastafest.com.br



{Junho 30, 2011}   Eu vou torcer, eu vou!!!

Para que a caminhada de cada uma e cada um que passou pelas minhas aulas neste semestre seja de inteiro sucesso! Foi uma honra ter estado com vocês.

Um recesso de paz a todas e todos!/

Para aqueles e aquelas que ainda não terminaram… rs

Até Julho… ;D

Será que ela leu “O Menino do Dedo Verde”, Maurice Druon?

Mais?: http://lercomereamar.blogspot.com/2010/07/o-menino-do-dedo-verde.html



A’ Santa Thereza 

.

Reza de manso… Toda de roxo,

A vista no teto preza,

Como que imita a tristeza

Daquele círio trêmulo e frouxo…

.

E assim, mostrando todo o desgosto

Que sobre sua alma pesa,

Ela reza, reza, reza,

As mãos erguidas, pálido o rosto… 

.

O rosto pálido, as mãos erguidas,

O olhar choroso e profundo…

Parece estar no Outro-Mundo

De outros mistérios e de outras vidas.

.

Implora a Cristo, seu Casto Esposo,

Numa prece ou num transporte,

O termo final da Morte,

Para descanso, para repouso…

.

Salmos doridos, cantos aéreos,

Melodiosos gorgeios

Roçam-lhe os ouvidos, cheios

De misticismos e de mistérios…

.

Reza de manso, reza de manso,

Implorando ao Casto Esposo

A morte, para repouso,

Para sossego, para descanso 

.

D’alma e do corpo que se consomem,

Num desânimo profundo,

Ante as misérias do Mundo,

Ante as misérias tão baixas do Homem!

.

Quanta tristeza, quanto desgosto,

Mostra na alma aberta e franca,

Quando fica, branca, branca,

As mãos erguidas, pálido o rosto…

.

Leia mais:

http://conhecimentopratico.uol.com.br/linguaportuguesa/gramatica-ortografia/27/artigo206904-1.asp

 http://saopaulourgente.blogspot.com/2009/03/musa-impassivel-na-pinacoteca.html

 



{Junho 17, 2011}   O despertar da primavera

Parabéns às formandas e aos formandos!



{Junho 11, 2011}   Bloomsday



{Abril 29, 2011}   Aula de português

A linguagem
na ponta da língua,
tão fácil de falar
e de entender.

A linguagem
na superfície estrelada de letras,
sabe lá o que ela quer dizer?

Professor Carlos Góis, ele é quem sabe,
e vai desmatando
o amazonas de minha ignorância.
Figuras de gramática, esquipáticas,
atropelam-me, aturdem-me, seqüestram-me.

Já esqueci a língua em que comia,
em que pedia para ir lá fora,
em que levava e dava pontapé,
a língua, breve língua entrecortada
do namoro com a prima.

O português são dois; o outro, mistério.

Carlos Drummond de Andrade

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Língua –  Caetano Veloso

Gosta de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões

Gosto de ser e de estar

E quero me dedicar a criar confusões de prosódia

E uma profusão de paródias

Que encurtem dores

E furtem cores como camaleões

Gosto do Pessoa na pessoa

Da rosa no Rosa

E sei que a poesia está para a prosa

Assim como o amor está para a amizade

E quem há de negar que esta lhe é superior?

E deixe os Portugais morrerem à míngua

“Minha pátria é minha língua”

Fala Mangueira! Fala!

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó

O que quer

O que pode esta língua?

Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas

E o falso inglês relax dos surfistas

Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas!

Vamos na velô da dicção choo-choo de Carmem Miranda

E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate

E – xeque-mate – explique-nos Luanda

Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo

Sejamos o lobo do lobo do homem

Lobo do lobo do lobo do homem

Adoro nomes

Nomes em ã

De coisas como rã e ímã

Ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã

Nomes de nomes

Como Scarlet Moon de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé

e Maria da Fé

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó

O que quer

O que pode esta língua?

Se você tem uma idéia incrível é melhor fazer uma canção

Está provado que só é possível filosofar em alemão

Blitz quer dizer corisco

Hollywood quer dizer Azevedo

E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo meu medo

A língua é minha pátria

E eu não tenho pátria, tenho mátria

E quero frátria

Poesia concreta, prosa caótica

Ótica futura

Samba-rap, chic-left com banana

(- Será que ele está no Pão de Açúcar?

– Tá craude brô

– Você e tu

– Lhe amo

– Qué queu te faço, nego?

– Bote ligeiro!

– Ma’de brinquinho, Ricardo!? Teu tio vai ficar desesperado!

– Ó Tavinho, põe camisola pra dentro, assim mais pareces um espantalho!

– I like to spend some time in Mozambique

– Arigatô, arigatô!)

Nós canto-falamos como quem inveja negros

Que sofrem horrores no Gueto do Harlem

Livros, discos, vídeos à mancheia

E deixa que digam, que pensem, que falem.





{Novembro 29, 2010}   Descortinando a crônica

Nas duas primeiras décadas do século XX, o gênero deixara de ser designado por folhetim. A partir da Semana de Arte Moderna de São Paulo, em 1922, os autores serviram-se da crônica para divulgar e defender novos ideais de arte e literatura. O humor nos fatos do cotidiano, fatos banais, nova linguagem literária. Um jovem inicia como colaborador de jornal nesse período e se tornará um dos principais representantes do gênero: Rubem Braga. (…)

Cada um procura a melhor forma de fazer seus registros, buscando artefatos que lhe sejam mais agradáveis. O que importa é o registro feito. O conhecimento é uma experiência prazerosa e toda vez que se faz registro, está repassando o conhecimento adquirido e vivenciado para outras pessoas. O conhecimento não é nem nunca foi egoísta. Precisa ser partilhado. Convivido.

Josane Buschmann

Obrigada, Jô!

A partir do trabalho da profa Josane, alunas e alunos do 1º EM escolheram o tema e estão construindo dois blogs, com informações, imagens, vídeos e textos narrativos produzidos por eles/elas.

Visite, dê sua opinião e incentive a escrita e a leitura:

bLog d@ 1G:

http://divercidadecult.wordpress.com/

bLog d@ 1F:

http://diversidadedegeneronaescola.wordpress.com/




{Novembro 16, 2010}   Memória Escrita e Lida

Essa aversão pela leitura fica ainda mais inconcebível se somos de uma geração, de um tempo, de um meio e de uma família onde a tendência era nos impedir de ler.

– Mas pára de ler, olha só, você vai estragar a vista!

– Sai, vai brincar um pouco, está fazendo um tempo tão bonito!

– Apaga, já é tarde!

É isso, o tempo estava sempre bom demais para ler, ou então era a noite, escura demais.

Note-se que em ler ou não ler, o verbo já era conjugado no imperativo! Mesmo no passado, as coisas não davam certo. De certo modo, ler, então era um ato subversivo. À descoberta do romance se juntava a excitação da desobediência familiar. Duplo esplendor! Ah, a lembrança dessas horas de leitura roubadas, debaixo das cobertas, à luz fraca de uma laterna elétrica! Como Anna Karenina galopava depressa-depressa para junto do seu Vronski, naquelas horas da noite! Eles se amavam, aqueles dois, e isso já era lindo em si, mas se amavam contra a proibição de ler e isso era ainda melhor. Eles se amavam contra pai e mãe, se amavam contra o dever de matemática não terminado, contra a “dissertação” a preparar, contra o quarto por arrumar, eles se amavam em vez de irem para a mesa, eles se amavam antes da sobremesa, eles se preferiam à partida de futebol, à colheita de cogumelos, eles se tinham escolhido e se preferiam a tudo mais. Ah, meu Deus, o belo amor!

E como o romance era curto.

(PENNAC, Daniel. Como um romance. Trad. Lenny Werneck. 4ª ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1993. p. 15- 16)

 



{Novembro 16, 2010}   Memória Escrita e Lida

Com a morte de Lili, tia Maria ficou toda em cuidados comigo. Proibiu-me da liberdade que eu andava gozando como um libertino. Passava o dia a me ensinar as letras. Os meus primos, esses, ninguém podia com eles.

Ficava eu horas a fio sentado na sala de costura, com a carta de á-bê-cê na mão, enquanto por fora de casa ouvia o rumor da vida que não me deixavam levar. Era para mim, esta prisão, um martírio bem difícil de vencer. Os meus ouvidos e os meus olhos só sabiam ouvir e ver o que andava pelo terreiro. E as letras não me entravam na cabeça.

– Nunca vi um menino tão rude – dizia asperamente a velha Sinhazinha.

Tia Maria, porém, não desanimava, continuando com afinco a martelar a minha desatenção.

As conversas das costureiras começavam então a me prender. Elas trabalhavam numa palestra que não parava. Falavam sempre de outros engenhos, onde estiveram no mesmo serviço, contando das intimidades das famílias.

– No Santarém ninguém come – dizia uma -, é bacalhau no almoço e no jantar.

A outra contava que o senhor de engenho do Poço Fundo tinha mais de vinte mulheres. Esta conversa me tomava inteiramente, e as letras, que a solicitude de minha tia procurava enfiar pela minha cabeça, não tinha jeito de vencer tal aversão. O que eu queria era a liberdade de meus primos, agora que as arribaçãs, com a seca do sertão, estavam descendo a revoada para os bebedouros.

(REGO, José Lins do. Menino de Engenho. 89ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2005. p.46-47)



{Novembro 11, 2010}   Memória Escrita 20

Na verdade acho que sempre tive mais contato com os números, mas lembro de todas as noites meu pai lendo algumas páginas de um livro para mim, que particularmente não sei da história até hoje. É alguma coisa com Capelo Gaivota; um livro de capa dura azul, com o título escrito em prata, não deve ser o tipo de livro que se lê para uma criança.

Lembro do primeiro livro que eu mesma li. Até hoje não sei pronunciar o nome, e também não lembro como se escreve. Mas é uma história conhecida, em que a filha paga uma dívida do pai, se casando com o rei. Por algum motivo, ela teria que transformar palha em ouro e assim se desvenda a história.

O que acho legal é que o primeiro livro que li sozinha quando criança fazia e faz muito mais sentido do que o que o meu pai lia perfeitamente e diariamente para mim.

 

Este é o filme que marcou uma geração e transformou o livro de Richard Bach num best-seller que vendeu 40 milhões de cópias e viajou por 70 países do mundo. Foi indicado ao Oscar® 1974 (Melhor Fotografia e Melhor Montagem) apresenta uma trilha sonora ganhadora do Grammy® e do Globo de Ouro®, do lendário Neil Diamond.



{Novembro 11, 2010}   Memória Escrita 19

Primeiro ABC

Na entrada da escola a mãe se despede da filha, o primeiro dia de aula da vida inteira, tão entusiasmada para ver a professora, os colegas e todas as novidades.

Quando a professora começa a falar das “tais” letras que tanto queria conhecer fica feliz, mas assustada por tanta coisa nova. Sentia que era tão difícil escrever a primeira letra, o nome inteiro nem se fale.

Hoje fica uma linda recordação da sua primeira letra, e uma grande saudade. O que “ontem” era difícil hoje é mais do que uma das coisas que ela mais usa, e não importa se é o português, matemática ou biologia, ela ainda usa o ABC.

 



{Novembro 11, 2010}   Memória Escrita 18

Tenho muita saudade de quando estava aprendendo a escrever, não me lembro em que série foi, eu não sabia escrever direito ainda e tive que fazer uma carta para minha mãe, a carta ficou bem feia, mas foi de coração, até hoje minha mãe tem ela, eu sempre escrevia, chegava em casa e ia escrever, até eu chegou um tempo, eu conheci o computador e parei de escrever.

Lá pela terceira série a professora começou com a ideia de fazer um teste para ver quem podia escrever de caneta e dali em diante e eu passei.

 



{Novembro 11, 2010}   Memória Escrita 17

Meus primeiros contatos com as letras um dia foram inesquecíveis, porém, hoje em dia nem consigo lembrar direito.

Talvez seja porque eu era muito criança, talvez porque eu tenho a memória ruim, não me lembro muito bem dessas imagens. Mas dos sentimentos… talvez eu lembre.

Eu aprendi a ler quando era bem novo, com a minha mãe, em casa. Era fantástico ver todas aquelas letras, algumas simplesmente redondinhas, ou então, o que era ainda mais fantástico, algumas belas iluminuras, que iniciavam cada bela história.

Com o tempo, um pouco de encantamento passa, mas as lembranças permanecem vivas.



{Novembro 11, 2010}   Memória Escrita 16

Letras são muito estranhas quando não sabemos o que são, as primeiras vezes que tive contato com as letras não entendia nada, ficava curioso para saber porque as pessoas ficavam olhando aquelas letras, era algo muito curioso. Até que entrei na escola e lá havia muitas letras e livros, por sorte, a professoras começou a explicar tudo. Quando cheguei em casa, peguei a revista que todos ficavam olhando e comecei a juntar os sons das letras e consegui ler minha primeira palavra. Aquilo foi um momento muito feliz que nunca vou esquecer, e agora entendo que aquelas letras estranhas eram na verdade algo muito importante que vão me ajudar muito na minha vida e no meu futuro.

 



{Novembro 11, 2010}   Memória Escrita 15

A primeira vez em que eu comecei a aprender sobre as letras foi no pré 1, em que eu estava aprendendo a escrever vendo os sons das letras, vendo como se escrevia cada letra e tentando muitas vezes criar frases, palavras que para mim eram meio trabalhosas. No pré as professoras não davam coisas pra gente ler e escrever, apenas para recortar e colar, enfim, pré 1 do que estou falando.

Mas mesmo sem muito incentivo, eu tinha curiosidade em aprender sobre as letras, ler, escrever, etc. Depois de um tempo, quando eu já estava na primeira série, (ensino fundamental) eu queria ler livros e lia mesmo, com vontade mesmo. Os livros de primeira série eram pequenos, mas para mim eram fascinantes as histórias, pois eram poucas as já lidas por mim e hoje eu gosto de ler, gosto muito, mas para que eu me interesse pelo livro ele deve ser muito bom.

 



{Novembro 11, 2010}   Memória Escrita 14

A primeira vez que eu tive contato com as letras foi quando eu estava aprendendo a ler e escrever. Claro que antes eu via algumas letras, mas não tinha noção do que estava escrito.

Para mim as letras são muito importantes, pois sem elas eu não iria ter um futuro, não iria chegar até onde estou hoje, não estaria pensando em faculdade. Eu seria uma analfabeta e meu futuro não teria nada de bom.

Pode até ser que depois de terminar meus estudos eu sinta saudades da escola, das letras que eu aprendi e me proporcionaram um futuro melhor. Vou passar tudo o que eu aprendi para os meus filhos, para os meus netos, que vai passando de geração em geração. E eu garanto que vão fazer tudo certo.

 



{Novembro 11, 2010}   Memória Escrita 13

Foi quando na infância, assistindo aos programas e propagandas de televisão onde passavam as letras, às vezes em algum anúncio, eu acredito que foi esse o primeiro contato com as letras, pois não me lembro de qual foi a primeira palavra que tenho falado.

Quando entrei em uma escolinha, foi a primeira vez em que pude ter um contato maior com a escrita, com as palavras, mas ainda não escrevia nem lia.

Como era boa a infância, onde você não se preocupava com provas, tarefas e etc; tarefas que hoje têm que ser cumpridas. Mas é muito bom relembrarmos daquele tempo mesmo que não possamos lembrar de tudo o que fizemos, mas às vezes até isso é bom, pois às vezes nos deixa tristes.



{Novembro 11, 2010}   Memória Escrita 12

Meus primeiros contatos com as letras foi quando eu comecei a ir para a escola, lá eu aprendi várias letras. Mas agora eu acabei esquecendo como eu tive meu primeiro contato com as letras, mas isso não me importa mais, porque eu já sei andar entre outras coisas e agora eu estou aprendendo muita coisa nova. E agora tudo o que eu já aprendi fica na lembrança, pois eu já aprendi várias coisas importantes para usar no meu dia-a-dia, mas hoje eu já não me lembro de mais nada, pois minha mente não é boa, mas eu estou me esforçando para não esquecer mais nada pois, eu quero ser alguém na vida e ter uma família boa.



{Novembro 11, 2010}   Memória Escrita 11

Meus primeiros contatos com as letras

Tudo isso começou na minha casa, eram meados de 2000. Eu acabei ganhando de presente de minha mãe ou da minha avó um conjunto de cubinhos, que vinha com todas as letras do alfabeto, inclusive Y,K,W. Vinham 5 letrinhas em cada cubinho daqueles. Com tudo isso, aprendi a escrever meu nome completo, o da minha família e a formar novas palavras.

Dá uma saudade daquelas disso tudo, é também uma pena que não dá para voltar atrás no tempo. Por isso que eu digo pra mim, o jogo das letras deixa sempre deixará saudades.

 



{Novembro 7, 2010}   Memória Escrita 10

O meu primeiro contato com a letra foi na escola no pré, eu comecei a ver as letras e brincar com elas porque naquela época eu brincava com as letras não ficava observando as letras o significado delas não montava nenhuma frase ainda. Sempre eu pegava a letra A para brincar porque eu gostava dela, sempre mesmo quando outras crianças pegavam a letra A eu ficava triste, porque não era eu que estava com a letra A.

 



{Novembro 7, 2010}   Memória Escrita 9

Ainda tenho em minha mente, vagas lembranças da sensação de olhar para as letras, e ver aquilo como se fosse uma língua estrangeira, lembro quando minha avó ficava ansiosa para que eu aprendesse a escrever, e escrevesse uma carta pra ela.

Certo dia, eu me esforçava para ler o que estava escrito na porta da farmácia, que obviamente, era farmácia, mas aquelas letras estavam dispostas da forma como estavam escritas as palavras “polícia federal” nos uniformes dos policiais, então, tentando ler, achei que estava escrito “polícia”, eu lia a forma e não as palavras, então minha avó me corrigiu, lendo a forma correta. A partir daquele dia, “Farmácia” era a única palavra que eu conseguia ler, e apenas em um lugar, mas minha avó se esforçava junto comigo, me ensinando sempre, até o dia em que ela ficou feliz em saber que eu consegui ler sozinha a palavra “ao vivo” no canto da televisão.

 



{Novembro 7, 2010}   Memória Escrita 8

Não gostava de brincar com as letras, gostava de brincar com as cores, achava que letras eram exclusividade dos adultos. Para mim o que era divertido mesmo era desenhar, ainda é divertido, porém a escrita foi me encantando aos poucos.

Aos poucos fomos aprendendo as letras na escola, com isso, fui unindo o que mais gostava com o que eu devia aprender. Desenhava letras o tempo todo, quando aprendi a escrever, desenhava as palavras de um jeito que deixassem mais feliz, que agradassem a mim.

Quando aprendi a ler, não teve quem me parasse, não consigo viver sem a leitura, sempre estou escrevendo coisas e postando na internet, lendo e escrevendo sempre.



{Novembro 7, 2010}   Memória Escrita 7

Éramos pequenos, a maioria das palavras que falávamos estavam erradas, as frases com sentido diferente, até que uma educadora apareceu em nossas vidas, ensinando cada letra do alfabeto, formando sílabas, juntando tudo até formar uma palavra, que na maioria das vezes nós não sabiamos o significado. Chegavamos em casa e corríamos contar para nossa mãe a palavra nova que aprendemos. Tempos que não voltam e que foram uns dos melhores.

 



{Novembro 7, 2010}   Memória Escrita 6

Memória das letras desperta sentimentos que nem com palavras conseguirei explicar, me sinto vitoriosa pelo fato de desde pequena aprendendo mais, e claro um pouco de saudade, palavras não mais ditas, as primeiras palavras, as primeiras letras, sempre aprimorando conhecimentos. Saudades do tempo de criança quando terminava o dia, tinha ido a escola, tinha tomado banho, ia para o meu quarto escrevendo o meu dia, coisas que nunca mais vou fazer, saudades também da a palavra que posso definir o que sinto.

É algo que lembraremos sempre, e sempre que lembrarmos vamos sentir saudades daquilo que mesmo não fizemos, saudade quando aquela caneta olhava para mim e meu braço olhava a caneta e assim, as palavras começam a vir na cabeça e quando vemos mais já acabamos de relatar algo.

 



{Novembro 7, 2010}   Memória Escrita 5

Para mim as letras pode mostrar duas coisas a saudade e o significado de alguma coisa.

Porque você pode lembrar de várias coisas, como a infância, os bons momentos que não voltam mais e com isso vem a saudade do que você passou, mas por outro lado pode ter um significado de uma coisa pra você, coisas que só você entende.

Para mim é mais como o autor a saudade um sentimento bom que você quer reviver todos os momentos, pois trouxeram alegria.

 



{Novembro 7, 2010}   Memória Escrita 4

Os velhos tempos não voltam mais, mas as recordações nunca sairão da nossa mente!

Lembrar o passado, de quando comecei a escrever, era um amontoado de letras, parecia que não acabava nunca, eu juntava as letras e sempre formavam palavras diferentes.

Ai nós crescemos, e tudo muda ainda mais, o seu formato de escrita, a maneira de falar.

Antigamente a escrita era a química para nós hoje, difícil, cheia de idéias. E o nosso português hoje é como conseguir passar na federal, é sonho!

Nós crescemos e vamos aprendendo a cada dia, sempre coisas diferentes que nos ajudam.



{Novembro 7, 2010}   Memória Escrita 3

As letras lembram passado, que dá saudade. Para mim as letras não lembram passado, às vezes algum acontecimento me lembra o passado, e consequentemente fico com saudade. Às vezes alguma frase, palavra ou gíria, me lembra um amigo ou até aquele amor que de certa forma ainda não foi esquecido.

Palavras são poderosas, elas podem despertar sentimentos, fazer nascer um sentimento, machucar, doer lá no coração, fazer nascer uma amizade ou matar um amor, pode fazer chorar, rir, lembrar o passado e sentir saudade.

 



{Novembro 7, 2010}   Memória Escrita 2

O jogo de letras para mim, na verdade lembra dia 11 de setembro de 2001. Quando as torres gêmeas sofreram o atentado. Claro que não foi a primeira vez que eu escrevi, mas foi o primeiro texto bonito, e com uma letra fofa que eu fiz.

Esse jogo de letras também me desperta saudades de um tempo bom de quando eu era criança. Mas o verdadeiro significado para mim é recordação, tanto de bons quanto de maus momentos, que não precisam ser escritos, porém ficaram gravados eternamente em mim.



{Novembro 7, 2010}   Memória Escrita 1

É difícil relembrar todo nosso passado, mas me lembro muito bem de quando não sabia ler, fazer o número 2 era praticamente impossível, odiava estudar, detestava tudo, a infância não me causa nenhuma saudade e sim somente tristeza. Tudo é passado e quem vive do passado é museu. Chorava todo o dia, pois, nada aprendia, ecrever meu nome fui aprender muito tempo depois de frequentar a escola. Hoje ao lembrar de tudo me desprezo com tanta ignorância.

 



{Novembro 5, 2010}   Memória escrita

Você se lembra do seu primeiro contato com a escrita?

Alunas e alunos do 1ºEM escreveram sobre este momento. Alguns se lembram bem como foi, outros nem tanto, mas a tentativa de resgatar este momento nos proporcionou textos interessantes.

Confira e comente!

Nunca podemos recuperar totalmente o que foi esquecido. E talvez seja bom assim. O choque do resgate do passado seria tão destrutivo que, no exato momento, forçosamente deixaríamos de compreender nossa saudade. Mas é por isso que a compreendemos, e tanto melhor, quanto mais profundamente jaz em nós o esquecido. Tal como a palavra, que ainda há pouco se achava em nossos lábios, libertaria a língua para arroubos demostênicos, assim o esquecido nos parece pesado por causa de toda a vida vivida que nos reserva. Talvez o que o faça tão carregado e prenhe não seja outra coisa que o vestígio de hábitos perdidos, nos quais já não nos poderíamos encontrar. Talvez seja a mistura com a poeira de nossas moradas demolidas o segredo que o faz sobreviver. Seja como for – para cada pessoa há coisas que lhe despertam hábitos mais duradouros que todos os demais. Neles são formadas as aptidões que se tornam decisivas em sua existência. E, porque, no que me diz respeito, elas foram a leitura e a escrita, de todas as coisas com que me envolvi em meus primeiros anos de vida, nada desperta em mim mais saudades que o jogo das letras. Continha em pequenas plaquinhas as letras do alfabeto gótico, no qual pareciam mais joviais e femininas que os caracteres gráficos. Acomodavam-se elegantes no atril inclinado, cada qual perfeita, e ficavam ligadas umas às outras segundo a regra de sua ordem, ou seja, a palavra da qual faziam parte como irmãs. Admirava-me como tanta modéstia podia coexistir com tanta magnificência. Era um estado de graça. E minha mão direita que, obedientemente, se esforçava por obtê-lo, não conseguia. Tinha de permanecer do lado de fora tal como o porteiro que deve deixar passar os eleitos. Portanto, sua relação com as letras era cheia de renúncia. A saudade que em mim desperta o jogo das letras prova como foi parte integrante de minha infância. O que busco nele na verdade, é ela mesma: a infância por inteiro, tal qual a sabia manipular a mão que empurrava as letras no filete, onde se ordenavam como uma palavra. A mão pode ainda sonhar com essa manipulação, mas nunca mais poderá despertar para realizá-la de fato. Assim, posso sonhar como no passado aprendi a andar. Mas isso de nada adianta. Hoje sei andar; porém, nunca mais poderei tornar a aprendê-lo.

(BENJAMIN, Walter. RUA DE MÃO ÚNICA. São Paulo: Brasiliense, 1978.)

Nunca poderemos recuperar, resgatar verdadeiramente o passado… Cada vez que o visitamos é novo, somos novos. Podemos não nos dar conta, mas seguimos mudando, sempre. Senão não estaríamos aqui. Não restaria nada a fazer. O que  atravessamos a vida fazendo é BUSCAR, desejar, e este desejo nos obriga ao movimento, todo movimento carrega em si transformação. Escreva hoje sobre algo… deixe passar um tempo… volte a escrever… mais um tempo e faça este exercício de novo, talvez possamos ter as dimensões de tempo. O que fazemos na verdade é um acordo com o tempo…

Boa leitura e boa escrita!



{Setembro 17, 2010}   Antes que o mundo acabe

Leia mais: http://cinema.cineclick.uol.com.br/filmes/ficha/nomefilme/antes-que-o-mundo-acabe/id/16299

Obrigada, querida!



{Agosto 28, 2010}   Parlamento Juvenil do MERCOSUL

O que é?

Desde o início da década de 1980, a maioria dos países da região levaram adiante uma série de processos orientados para a democratização, o fortalecimento das instituições e a promoção de diversos mecanismos de participação. Com o correr dos anos, estes países foram perceben­do que a consolidação das suas democracias requer circular e avançar por outros caminhos. Por um lado, as profundas transformações eco­nômicas, sociais, culturais e tecnológicas ocor­ridas colocaram novos problemas e desafios que obrigam a redefinir o que significa o exer­cício de uma cidadania plena e ativa. Mas, por outro lado, estes países perceberam que, para aumentar e consolidar a cultura democrática, tornou-se incontornável prestar atenção a uma população em particular: a juventude.

Os jovens e as jovens, com as suas múl­tiplas vivências, expectativas, inquietudes e preocupações têm muito a dizer, pensar, discu­tir e propor, sobre temas e problemas do mundo contemporâneo que, enquanto afetam as socie­dades no seu conjunto, têm uma incidência es­pecífica nos seus projetos de vida.

Neste cenário, coloca-se o projeto Parla­mento Juvenil do MERCOSUL, cujo principal propósito é abrir espaços de participação juve­nil que possibilitem a troca, discussão e diálogo entre pares sobre temas profundamente vinculados com a vida presente e futura dos jovens, e sobre os quais é muito importante que possam construir um posicionamento próprio. O projeto propõe-se contribuir para a formação política e de cidadania das jovens e dos jovens oferecendo-lhes ferramentas que os habilitem como participantes ativos nos grupos e nas comunidades das quais fazem parte.

Quem participa?

Representantes dos países do MERCOSUL: Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Paraguai e Uruguai. Os países que participam deste projeto con­cordaram na necessidade de estabelecer como faixa etária a idade de 15 a 17 anos, mas cada país, se o considerar necessário, terá a possi­bilidade de alargar a faixa de 14 a 18 anos. Também se concordou trabalhar em escolas públicas de nível médio, dando prioridade aos setores mais carentes. Prevê-se, além disso, a participação em igual número de mulheres e homens.

Quais os temas debatidos?

Inclusão educativa

Gênero

Jovens e trabalho

Participação cidadã dos jovens

Direitos humanos

Estes assuntos foram selecionados – entre outros possíveis e de interesse– porque se considerou que envolvem direitos reconhecidos nos países, tanto em normativas nacionais específicas como em legislações internacionais nas quais se inscrevem os Estados que integram este projeto.

Como é o processo de seleção dos representantes?

O “Parlamento Juvenil do MERCOSUL” nasceu como um projeto cujo principal objetivo é abrir espaços de participação para que os e as jovens troquem ideias, dialoguem e discutam entre eles/as sobre temas que tenham uma profunda vinculação com suas vidas presentes e futuras. Após as participações feitas nas distintas equipes de trabalho, inicia-se uma nova etapa para o Parlamento, destinada a recuperar as contribuições e propostas feitas até esse ponto. Então se abre um novo grupo de troca chamado A escola que queremos.

A seleção de jovens representantes para participar no encontro regional a efetuar-se na cidade de Montevidéu no mês de outubro de 2010 já está sendo realizada. Esses jovens terão um espaço de trabalho colaborativo no portal chamado A escola que queremos. Preparando-nos para o encontro de Montevidéu.

Os textos selecionados no Paraná serão publicados neste espaço para que todas e todos possam dialogar, discutir, propor idéias e construir novas reflexões para contribuir cada vez mais com o objetivo de alcançar O Ensino Médio que queremos.

Para saber mais: http://parlamentojuvenil.educ.ar

http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/diaadia/diadia/modules/noticias/article.php?storyid=1769&PHPSESSID=2010082722005931



{Julho 16, 2010}   Enquanto dura a festa

Eles estão lá embaixo, chorando o morto: Mamãe, meus irmãos, meus tios, meus primos primeiros, meus primos segundos, os amigos, os inimigos, os vizinhos, os caridosos, os curiosos, os que iam passando, os que souberam, os que gostam de ver defunto ou gente chorando – todo mundo. Às vezes tudo fica tão silencioso, que começo a dormir; mas logo alguém grita ou há um choro desatinado, e eu rolo na cama, com o travesseiro grudado no rosto, xingando. Não se cansam? Desde a madrugada isso.

Na hora que ele morreu, minha irmã veio gritando pela casa como se fosse o fim do mundo; acordei com o coração na garganta, quase que eu também morro. Levantei do jeito que estava, só de cueca, e fui correndo ao quarto dele. Mamãe estava lá, na cabeceira da cama, desesperada. Corri ao telefone e chamei o médico. O médico veio, examinou, abanou a cabeça. “Não! Não”, gritava Mamãe. Estava uma cena ridícula:o velho morto, na cama, de olhos arregalados e boca aberta; Mamãe, de camisola e descabelada, agarrando Papai e gritando; minha irmã, também só de camisola, agarrada a Mamãe e gritando; o médico de terno e gravata (afinal ele não correu tanto assim como disse: ele não teve tempo de pentear o cabelo e de pôr a gravata?), e eu só de cueca. Lembrei-me desses quadros: “À cabeceira do morto”. Só que neles nunca aparece um sujeito de cueca, e os mortos têm sempre uma expressão bela e serena. A expressão de meu pai era a última coisa do mundo que se poderia chamar de bela e serena: era horrível, uma expressão de dor, pavor e desespero. Se eu acreditasse em inferno, diria que meu pai àquela hora estava vendo o inferno. Depois arranjaram a cara dele: fecharam seus olhos e amarraram um pano ao redor do rosto. Chamam isso de “respeito pelos mortos”. Eu queria ver, num velório, um morto com aquela cara que tinha meu pai. Mas um morto não tem direito nem mais à própria cara…

Logo a casa se encheu de gente. Primeiro vieram os vizinhos, os parentes; depois os outros. Eles arranjaram tudo. Meu irmão casado veio logo e tomou as providências necessárias. Na hora de botar o velho no caixão, eu ajudei, pegando os pés dele. Depois vim para o quarto. Espero que ninguém venha aqui me chamar. Eu já avisei. Eles sabem como eu sou. A morte do velho não muda nada: eu não tinha nada com ele em vida, por que vou ter agora que ele está morto?

“Meus sentidos pêsames”- os palhaços. Um chegou com cara de pêsames mais caprichada do mundo e, na hora de me estender a mão: “Meus parabéns”- e nem deu pela coisa. Quase estourei numa risada. Há os que chegam e não falam nada, só dão uns tapinhas e ficam um pouco abraçados com a gente. Nogueira foi um desses. Chegou e me deu uns tapinhas nas costas – mas eu não estendia um dedo para o filho da puta. Nogueira devia um milhão para Papai, que vivia atrás dele, cobrando. Mas o desgraçado sumia, que ninguém achava; e quando dava azar de ser encontrado, prometia que viria aqui em casa acertar tudo. Papai não acreditava, claro; mas já andava cansado e doente, não queria complicação.

Um milhão. Agora o velho morreu, e Nogueira aparece todo santinho, todo compungido, todo minhas-condolências. “Evitem de ele ter aborrecimentos fortes”, dizia o médico. Um milhão é um aborrecimento forte. Eu devia ter perguntado para o Nogueira: “Cadê o dinheiro?” Devia ter perguntado para ele ali, diante dos outros, na vista de todo mundo. “Cadê dinheiro? Cadê o milhão que você deve para Papai? “Envergonhá-lo, humilhá-lo, mostrar que ele foi um dos que ajudaram a matar o velho; fazê-lo ajoelhar diante do caixão e esfregar o nariz dele nos pés do defunto, fazê-lo pedir perdão, depois tocá-lo de casa a pontapés. Devia ter feito isso. Devia tê-lo arrasado, de tal modo que ele jamais se esquecesse disso, assim como os que tivessem visto a cena. Que isso ficasse em sua memória como um risco de faca na cara.

Bondade diante do caixão: o morto não precisa dela, ele está morto. Felizmente ele está morto. “Seu pai foi um santo homem”, me disse o vizinho, o que Papai, em casa, chamava de crápula; como ele, em sua rodinha, chamaria Papai? Santo homem… Nunca, Papai nunca foi isso. Era um homem egoísta, às vezes cruel, um marido desconfiado, um pai sem carinho, um filho distante. Mas se, durante a vida dele, essas pessoas que estão lá embaixo agora tivessem chorando um pouco por ele, sido boas com ele, talvez ele tivesse sido melhor. Mas, vê-se, elas estavam esperando primeiro ele morrer. Ser bom com os vivos dá muito trabalho: amanhã ele estará morto, e iremos chorar sobre o seu cadáver -assim é mais fácil.

Santo homem (quem eles pensam que estão enganando? o morto? eles mesmos? os parentes do morto?): quando alguém diz isso, Mamãe chora, minha irmã chora, meu irmão chora, todo mundo chora. É como uma festa, uma festa fúnebre, em que, o invés de rir, todo mundo chora e se embriaga com lágrimas, enquanto piedosas mentiras são ditas à meia-voz por rostos falsamente compungidos. E, no meio de tudo isso, o morto – a causa, o pretexto, o ornamento. Sua alma já descansou, mas seu corpo ainda deve permanecer, enquanto dura a festa.

Colaboração: Pedro Afonso – 1º AD



et cetera