o BloG dA pRofA











{Fevereiro 2, 2012}   Dois lados

 

 

Deste lado tem meu corpo
Tem o sonho
Tem a minha namorada me esperando
Tem minha vida, nossas vidas
Tem meu amor tão lento
Tem o caminho sendo preparado
Tem você do outro lado

Do outro lado existe ela pensando em nós dois
Tem a perfeição do seu sorriso
Tem o sonho não realizado
Tem meu amor sendo guardado

Georgia Bontorin

Que este amor, Georgia, não fique guardado!

Amor tem que ser amado, distribuído, gostado, visto, revisto e visitado.

Sonhos são realizados, fantasias não. Amor é sonho real na vida, não ilusão.

Feito de duas: pessoas, mente, posição. Feito de dois: lados, distinção, opinião.

Amado sempre e respeitado, tem tudo para ser frutificado. 

Adoro um amor inventado! Não acho nada exagerado.

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{Fevereiro 2, 2012}   O peregrino

O oceano desprende de seu olhar

Susurros, nessa peregrinação

que é a vida, deixam vultos a navegar

O barco é seu bem colossal

Água doce que possui amargas pitadas de sal.

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Perdoa-me, amarga peregrinação,

Mas falta de amor traz tanto rancor

Fator que desilude teu coração

Te assusta, fere e estraçalha sua alma com dor

e com golpes certeiros de pura obsessão.

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Tanta solidão deve-se ao destino

O mesmo que vai e volta para matar

A cada vítima, aí está você sozinho

A cada movimento e a cada olhar, desabas

Com tanta tristeza que o segue, peregrino.

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Pensando nos velhos momentos, choras, meu jovem,

Por ter trocado a segurança pela incerteza

Detalhe que o consome a cada instante

No seu semblante, pulsa a morte

De quem um dia considerava-se o forte.

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

“Homem ao mar!!!” assim ele vai

Preso em seus próprios sonhos

Afogando-se em suas próprias escolhas

Parte, enfim, a vida desse jovem

Peregrinante que então vira peregrina_dor.

Gabriel Moreira

 

Leia mais: O velho e o mar – Ernest Hemingway 

 http://www.4shared.com/office/Hb3IG7V3/Ernest_Hemingway_O_velho_e_o_m.html



{Novembro 5, 2011}   Gregório de Matos

Tomás Pinto Brandão estando preso por indústrias de certo frade: afomentado na prisão por seus dois irmãos apelidados o Frisão e o Chicória, em vésperas que estava o poeta de ir para Angola

.

SONETO

.

É uma das mais célebres histó-,

A que te fez prender, pobre Tomá-,

Porque todos te fazem degradá-,

Que no nosso idioma é para Angó-.

.

Oh se quisesse o Padre Santo Antô-,

Que se falsificara este pressá-,

Para ficar corrido este Frisá-,

E moído em salada de Chicó-.

.

Mas ai! que lá me vem buscar Mati-,

Que nestes casos é peça de lé-;

Adeus, meus camaradas, e ami-.

.

Que vou levar cavalos a Bengué-,

Mas se vou a cavalo em um navi-,

Servindo vou a El Rei por mar, e té-.

.

Matos, Gregório de. Poemas escolhidos: seleção e organização de José Miguel Wisnik. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p.192



{Outubro 16, 2011}   Premissas da vida

Se o amor fosse verdadeiro
Tudo sairia do mesmo ciclo rotineiro
Não existiriam falsas promessas, meu amor
Como uma dessas que você vive a citar.

Se o amor não fosse verdadeiro
Tudo pararia, não importando os derradeiros
Não existiriam verdadeiras analogias
Como a imperfeição de cada palavra sua.

Ah! Se o amor fosse o meu roteiro
Tudo aconteceria nas margens da imaginação
Pois a cada feito, haveria sempre um defeito.

Logo, a cada premissa haveria você
E a cada nova premissa haveria o amor
A conclusão, ficaria a cargo do coração.

Gabriel Moreira



{Setembro 20, 2011}   Urupês – Monteiro Lobato

O Engraçado Arrependido

Francisco Teixeira Pontes tinha 32 anos
Todos riam de suas piadas sem parar
Ele era um comediante natural
Mas um dia, com sua fama resolveu acabar

Ele queria virar um homem sério
Queria ser alguém como qualquer um
Tinha cansado da própria vida
Queria ser um homem comum

Tentou vários empregos
Mas com “qua qua qua” era respondido
Riam apenas de citar seu nome
Achou que já estava perdido

Então foi que ele soube de um emprego
Um de coletor federal
Mas era ocupado pelo Major Bentes
Que tinha um aneurisma fatal

Francisco contratou seu primo
E este lhe prometeu o cargo de coletor
Seria avisado logo após da morte do Major
Então Pontes planejou o assassinato com ardor

Sendo um comediante pensou
“Vou matar o Major de rir!”
O aneurisma não iria aguentar
Fazê-lo dar risada, ninguém pode me proibir

Indo a coletoria fazendo pequenos trabalhos
Conquistou o Major de pouco em pouco
Então finalmente Pontes o convidou para jantar
Para tentar fazê-lo rir como louco

Mas o plano não deu muito certo
O Major tinha cuidado com o aneurisma
Ria apenas timidamente
Pontes tinha que melhorar seu carisma

Pontes, porem pensou
“Todo homem tem seu ponto fraco”

Os do Major eram ingleses e frades
Enfim conseguiria por o velho no buraco

Depois de muita preparação
Criou uma anedota de um inglês, sua mulher e dois frades
Se o Major sobrevivesse
Prometeu dar um tiro na cabeça com toda a vontade

Então em um almoço no carnaval
Pontes começou a contar a piada
Major Bentes estava atento e adorando
E o momento do fim se aproximava

Pontes finalizou sua obra-prima
Em um ato rápido e cômico
Major Bentes riu mais alto que todos
Com um riso tragicômico

O Major caiu de cara no peixe e ali morreu
Apesar de ser planejado, Pontes se chocou
O assassino indireto correu pra casa
E lá por dias se trancou

Seu primo o ligou com péssimas notícias
A vaga de coletor já estava tomada
Pontes além de chocado, ficou sem emprego
Desejou nunca ter feito aquela piada

Pontes foi achado enforcado por uma ceroula
Um mês depois do assassinato do Major
Foi motivo de piada para toda a cidade
Então se ouvia, novamente, “quás” ao seu redor

 

http://prezi.com/vfwkhdyuzzb7/o-engracado-arrependido/

 

 

Trabalho maravilindo realizado pelas alunas Hevelin Sato, Maria Victória Garcez, Ana Lucia Faucz, Paola Gomes e Vitor Emanuel.

Parabéns! 



{Agosto 25, 2011}   LeMinsKi aNo

Aqui tou eu pra te proteger dos perigos da noite, do dia

Sou fogo, sou terra, sou água, sou gente, 

eu também sou filha de Santa Maria

Desencontrários (Paulo Leminski)

   Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
   Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
   Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.

   Mandei a frase sonhar,
e ela foi num labirinto.
   Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
   para conquistar um império extinto.

Dia 24/08 (quarta-feira), o escritor curitibano Paulo Leminski completaria 67 anos. Para comemorar a data, a Biblioteca Pública do Paraná (BPP) e o Museu da Imagem e do Som (MIS-PR) abrem a exposição “Clics em Curitiba”, com 24 painéis de fotos de Jack Pires associadas a poemas de Leminski, considerado um dos escritores brasileiros mais importantes da segunda metade do século 20.

As imagens e os textos foram originalmente publicados no livro “Quarenta Clics em Curitiba”, lançado pela dupla em 1976. A abertura da mostra é às 19h, em seguida, às 19h30, será exibido no Auditório Paul Garfunkel o documentário “Ervilha da fantasia – uma ópera Paulo Leminskiana”, do cineasta Werner Schumann

A programação ainda conta com a leitura dramática do texto “O dia em que morreu Leminski”, escrito pelo jornalista e dramaturgo Rogério Viana, também no auditório, às 17h30. A leitura é dirigida por Léo Moita e tem participação dos atores Felipe Custódio, Val Salles e Naiara Bastos.

Jack Pires foi um fotógrafo paulista radicado durante muitos anos em Curitiba, onde desenvolveu diversas atividades na Fundação Cultural de Curitiba e trabalhou em importantes estúdios fotográficos. Realizou, nos anos 1970 e 1980, valiosos registros do cotidiano da capital paranaense, num estilo que foi comparado ao de Henri Cartier-Bresson. Em 1976 convidou Leminski para associar seus poemas a diversos flagrantes registradas nas praças e ruas da cidade. O resultado é um livro de grande valor artístico e documental. [imprensa@seec.pr.gov.br]

Serviço:

Clics de Curitiba

Exposição de fotos do livro “Quarenta Clics em Curitiba”

A partir de 24 de agosto, às 19h

Visitação até 24 de setembro – Hall de entrada

Biblioteca Pública do Paraná – Rua Cândido Lopes, 133, Centro, Curitiba.

Entrada franca

Mais informações: (41) 3221-4917

Veja mais: http://www.youtube.com/watch?v=MHkya98tKgs

Leia mais: 

http://pauloleminskipoemas.blogspot.com/

http://www.releituras.com/pleminski_menu.asp

http://www.kakinet.com/caqui/leminski.htm



{Agosto 22, 2011}   Sedução Poética 2011

Cora Coralina

Doceira por vocação, poetisa por natureza 

122 anos

Não sei se a vida é curta ou longa para nós,

mas sei que nada do que vivemos tem sentido

se não tocarmos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:

colo que acolhe, braço que envolve,

palavra que conforta, silêncio que respeita,

alegria que contagia, lágrima que corre,

olhar que acaricia, desejo que sacia,

amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,

é o que dá sentido à vida.

É o que faz com que ela não seja nem curta,

nem longa demais,

mas que seja intensa,

verdadeira, pura enquanto durar.

Feliz aquele que transfere o que sabe

e aprende o que ensina.

Assim eu vejo a vida

A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver


/


Leia mais: http://www.paralerepensar.com.br/coracoralina.htm

http://www.senado.gov.br/noticias/fibra-de-cora-coralina-e-lembrada-como-exemplo-em-sessao-no-senado-nesta-terca.aspx

http://www.vilaboadegoias.com.br/cora_coralina/



{Agosto 7, 2011}   Sedução poética

Discurso – Cecília Meireles

E aqui estou, cantando. 

Um poeta é sempre irmão do vento e da água: 
deixa seu ritmo por onde passa. 

Venho de longe e vou para longe: 
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho 
e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes andaram. 

Também procurei no céu a indicação de uma trajetória, 
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel. 

Pois aqui estou, cantando. 

Se eu nem sei onde estou, 
como posso esperar que algum ouvido me escute? 

Ah! se eu nem sei quem sou, 
como posso esperar que venha alguém gostar de mim?
(Meireles, 1982, p.17)

 

Arte Poética 

Mirar el río hecho de tiempo y agua
Y recordar que el tiempo es otro río,
Saber que nos perdemos como el río
Y que los rostros pasan como el agua.

Sentir que la vigilia es otro sueño
Que sueña no soñar y que la muerte
Que teme nuestra carne es esa muerte
De cada noche, que se llama sueño.

 

Ver en el día o en el año un símbolo
De los días del hombre y de sus años,
Convertir el ultraje de los años
En una música, un rumor y un símbolo,

Ver en la muerte el sueño, en el ocaso
Un triste oro, tal es la poesía
Que es inmortal y pobre. La poesía
Vuelve como la aurora y el ocaso.

A veces en las tardes una cara
Nos mira desde el fondo de un espejo;
El arte debe ser como ese espejo
Que nos revela nuestra propia cara.

Cuentan que Ulises, harto de prodigios,
Lloró de amor al divisar su Itaca
Verde y humilde. El arte es esa Itaca
De verde eternidad, no de prodigios.

También es como el río interminable
Que pasa y queda y es cristal de un mismo
Heráclito inconstante, que es el mismo
Y es otro, como el río interminable.

Jorge Luis Borges (1960)
Leia mais: http://www.webartigos.com/articles/61658/1/A-METAPOESIA-EM-VIAGEM-DE-CECILIA-MEIRELES/pagina1.html#ixzz1UJ3UaGO5



{Junho 28, 2011}   Memórias do subsolo

VIII

– Ha, ha, ha! Mas essa vontade nem sequer existe, se quereis saber! – interrompeis-me com uma gargalhada. – A ciência conseguiu a tal ponto analisar anatomicamente o homem que já sabemos que a vontade e o chamado livre-arbítrio nada mais são do que…

– Um momento, senhores, foi justamente assim que eu mesmo quis começar. Cheguei até a me assustar, confesso. Ainda agora, quis gritar que a vontade depende diabo sabe do quê, e que talvez se deva dar graças a Deus por isto, mas lembrei-me da ciência e… me detive. E nesse instante começastes a falar. E, com efeito, se realmente se encontrar um dia a fórmula de todas as nossas vontades e caprichos, isto é, do que eles dependem, por que leis precisamente acontecem, como se difundem, para onde anseiam dirigir-se neste ou naquele caso, etc. etc., uma verdadeira fórmula matemática, então  o homem será capaz de deixar de desejar, ou melhor, deixará de fazê-lo, com certeza.  Ora, que prazer se pode ter em desejar segundo uma tabela? Mais ainda: no mesmo instante, o homem se transformará num pedal de órgão ou algo semelhante; pois que é um homem sem desejos, sem vontades nem caprichos, senão um pedal de órgão? Que pensais disso? Calculemos as probabilidades: pode tal coisa acontecer ou não?

– Hum… – retrucais. – As nossas vontades são, na maior parte equívocos devidos a uma concepção errada sobre as nossas vantagens. Se queremos às vezes um absurdo completo, é porque vemos nesse absurdo, devido à nossa estupidez, o caminho mais fácil para atingir alguma.

De fato, se a vontade se combinar  um dia completamente com a razão, querer algo desprovido de sentido e, deste modo, ir conscientemente contra a razão e desejar aquilo que é nocivo a nós próprios… E visto que todas as vontades e todos os raciocínios podem ser realmente calculados – pois algum dia hão de se descobrir as leis do nosso suposto livre-arbítrio -, então, deixando-se de lado as brincadeiras, será possível elaborar um espécie de tabela, e nós passaremos realmente a desejar de acordo com esta.

Durante toda a vida, eu não podia sequer conceber em meu íntimo outro amor, e cheguei a tal ponto que, agora, chego a pensar por vezes que o amor consiste justamente no direito que o objeto amado voluntariamente nos concede de exercer tirania sobre ele.

Mesmo nos meus devaneios subterrâneos, nunca pude conceber o amor senão como uma luta: começava sempre pelo ódio e terminava pela  subjugação moral; depois não podia sequer imaginar o que fazer com o objeto subjugado. E o que há de inverossímil nisso, se eu já conseguira apodrecer moralmente a ponto de me desacostumar da “vida viva”…

 

Fiódor Dostoiévski

 



A’ Santa Thereza 

.

Reza de manso… Toda de roxo,

A vista no teto preza,

Como que imita a tristeza

Daquele círio trêmulo e frouxo…

.

E assim, mostrando todo o desgosto

Que sobre sua alma pesa,

Ela reza, reza, reza,

As mãos erguidas, pálido o rosto… 

.

O rosto pálido, as mãos erguidas,

O olhar choroso e profundo…

Parece estar no Outro-Mundo

De outros mistérios e de outras vidas.

.

Implora a Cristo, seu Casto Esposo,

Numa prece ou num transporte,

O termo final da Morte,

Para descanso, para repouso…

.

Salmos doridos, cantos aéreos,

Melodiosos gorgeios

Roçam-lhe os ouvidos, cheios

De misticismos e de mistérios…

.

Reza de manso, reza de manso,

Implorando ao Casto Esposo

A morte, para repouso,

Para sossego, para descanso 

.

D’alma e do corpo que se consomem,

Num desânimo profundo,

Ante as misérias do Mundo,

Ante as misérias tão baixas do Homem!

.

Quanta tristeza, quanto desgosto,

Mostra na alma aberta e franca,

Quando fica, branca, branca,

As mãos erguidas, pálido o rosto…

.

Leia mais:

http://conhecimentopratico.uol.com.br/linguaportuguesa/gramatica-ortografia/27/artigo206904-1.asp

 http://saopaulourgente.blogspot.com/2009/03/musa-impassivel-na-pinacoteca.html

 



{Junho 23, 2011}   Saciedade & Sociedade

“A novidade
que tem no brejo da cruz
é a criançada
se alimentar de luz…”

Chico Buarque

… luz da lua
Do sol a luz,
Mas sobretudo
é da luz de teu olhar
que me acumulo…
Da luz de tua presença
de teus sentimentos
iluminados
tanto os bons sentimentos
quanto os sentimentos
danados…
Da luz de tua esperança
minha espera se sustenta
é na luz de tua alma
que minha fome se alimenta…

Minha alma
tua alma
água pura de beber
água benta…

Lilian Capossi

 



{Junho 11, 2011}   Bloomsday



{Março 7, 2011}   Sem rumo e Sem direção

Agora estou parado

Esperando um chamado

Parado pensando

Parado espero por um fluxo

Fluxo de adrenalina

Adrenalina que me dará coragem

Mas coragem do que? Não sei

Ou sei, ahh já nem sei mais o que estou falando.

Que loucura, que confusão

Nada mais tem sentido

Nessa loucura, alucinação

Essa alucinação acontece sempre

Sempre dentro do meu coração.

Coração que não tem rumo.

Coração que não tem direção.

Agora ligo meu rádio

Rádio ligado, coração inspirado

Ouço uma música

Músicas sempre tocam meu coração

Coração que não tem rumo.

Coração que não tem direção.

Penso en seu belo rosto

Penso em seu belo corpo

Sempre que essa música toca.

Música que sempre diz palavras lindas

Lindas músicas dizem palavras.

Volto a pensar mais em você

Penso só em você

Mas será que você pensa em mim?

Será que um dia você se tocará?

Será que um dia eu vou acabar.

Deus o que eu fiz?

Ou o que eu não fiz?

Por que me castiga?

Por que, deus!

Agora espero o dia

O dia da libertação espero

Libertação do meu coração

Coração alucinado por você

Coração que nunca teve rumo

Mas que enfim encontrou uma direção.

Gabriel – 1º EM



{Fevereiro 27, 2011}   Memórias de um aprendiz de escritor

Contar histórias. Eis uma coisa que meus pais sabiam fazer particularmente bem, com graça e humor; sabiam transformar pessoas em personagens, acontecimentos em situações ou cenas.

De minha mãe adquiri o gosto pela leitura. Éramos pobres; não indigentes; não chegávamos a passar fome; mas tínhamos que economizar. Apesar disto nunca me faltou dinheiro para livros. Minha mãe me levava à tradicional Livraria do Globo e eu podia escolher à vontade. Desde pequeno estava lendo. De tudo, como até hoje: Monteiro Lobato e revistas em quadrinhos, divulgação científica e romances. Mesmo os impróprios para menores. Minha mãe tinha Saga, de Érico Veríssimo, escondido em seu roupeiro; naquela época, Érico era considerado um autor imoral. Falava em (horror!) sexo. Mas eu logo descobri onde estava a chave, e quando minha mãe saía, mergulhava na leitura proibida.

 

p. 17 – 19.

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/881692-morre-o-escritor-moacyr-scliar.shtml

 

 



{Novembro 29, 2010}   Descortinando a crônica

Nas duas primeiras décadas do século XX, o gênero deixara de ser designado por folhetim. A partir da Semana de Arte Moderna de São Paulo, em 1922, os autores serviram-se da crônica para divulgar e defender novos ideais de arte e literatura. O humor nos fatos do cotidiano, fatos banais, nova linguagem literária. Um jovem inicia como colaborador de jornal nesse período e se tornará um dos principais representantes do gênero: Rubem Braga. (…)

Cada um procura a melhor forma de fazer seus registros, buscando artefatos que lhe sejam mais agradáveis. O que importa é o registro feito. O conhecimento é uma experiência prazerosa e toda vez que se faz registro, está repassando o conhecimento adquirido e vivenciado para outras pessoas. O conhecimento não é nem nunca foi egoísta. Precisa ser partilhado. Convivido.

Josane Buschmann

Obrigada, Jô!

A partir do trabalho da profa Josane, alunas e alunos do 1º EM escolheram o tema e estão construindo dois blogs, com informações, imagens, vídeos e textos narrativos produzidos por eles/elas.

Visite, dê sua opinião e incentive a escrita e a leitura:

bLog d@ 1G:

http://divercidadecult.wordpress.com/

bLog d@ 1F:

http://diversidadedegeneronaescola.wordpress.com/




{Novembro 16, 2010}   Memória Escrita e Lida

Essa aversão pela leitura fica ainda mais inconcebível se somos de uma geração, de um tempo, de um meio e de uma família onde a tendência era nos impedir de ler.

– Mas pára de ler, olha só, você vai estragar a vista!

– Sai, vai brincar um pouco, está fazendo um tempo tão bonito!

– Apaga, já é tarde!

É isso, o tempo estava sempre bom demais para ler, ou então era a noite, escura demais.

Note-se que em ler ou não ler, o verbo já era conjugado no imperativo! Mesmo no passado, as coisas não davam certo. De certo modo, ler, então era um ato subversivo. À descoberta do romance se juntava a excitação da desobediência familiar. Duplo esplendor! Ah, a lembrança dessas horas de leitura roubadas, debaixo das cobertas, à luz fraca de uma laterna elétrica! Como Anna Karenina galopava depressa-depressa para junto do seu Vronski, naquelas horas da noite! Eles se amavam, aqueles dois, e isso já era lindo em si, mas se amavam contra a proibição de ler e isso era ainda melhor. Eles se amavam contra pai e mãe, se amavam contra o dever de matemática não terminado, contra a “dissertação” a preparar, contra o quarto por arrumar, eles se amavam em vez de irem para a mesa, eles se amavam antes da sobremesa, eles se preferiam à partida de futebol, à colheita de cogumelos, eles se tinham escolhido e se preferiam a tudo mais. Ah, meu Deus, o belo amor!

E como o romance era curto.

(PENNAC, Daniel. Como um romance. Trad. Lenny Werneck. 4ª ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1993. p. 15- 16)

 



{Novembro 16, 2010}   Memória Escrita e Lida

Com a morte de Lili, tia Maria ficou toda em cuidados comigo. Proibiu-me da liberdade que eu andava gozando como um libertino. Passava o dia a me ensinar as letras. Os meus primos, esses, ninguém podia com eles.

Ficava eu horas a fio sentado na sala de costura, com a carta de á-bê-cê na mão, enquanto por fora de casa ouvia o rumor da vida que não me deixavam levar. Era para mim, esta prisão, um martírio bem difícil de vencer. Os meus ouvidos e os meus olhos só sabiam ouvir e ver o que andava pelo terreiro. E as letras não me entravam na cabeça.

– Nunca vi um menino tão rude – dizia asperamente a velha Sinhazinha.

Tia Maria, porém, não desanimava, continuando com afinco a martelar a minha desatenção.

As conversas das costureiras começavam então a me prender. Elas trabalhavam numa palestra que não parava. Falavam sempre de outros engenhos, onde estiveram no mesmo serviço, contando das intimidades das famílias.

– No Santarém ninguém come – dizia uma -, é bacalhau no almoço e no jantar.

A outra contava que o senhor de engenho do Poço Fundo tinha mais de vinte mulheres. Esta conversa me tomava inteiramente, e as letras, que a solicitude de minha tia procurava enfiar pela minha cabeça, não tinha jeito de vencer tal aversão. O que eu queria era a liberdade de meus primos, agora que as arribaçãs, com a seca do sertão, estavam descendo a revoada para os bebedouros.

(REGO, José Lins do. Menino de Engenho. 89ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2005. p.46-47)



{Novembro 11, 2010}   Memória Escrita 20

Na verdade acho que sempre tive mais contato com os números, mas lembro de todas as noites meu pai lendo algumas páginas de um livro para mim, que particularmente não sei da história até hoje. É alguma coisa com Capelo Gaivota; um livro de capa dura azul, com o título escrito em prata, não deve ser o tipo de livro que se lê para uma criança.

Lembro do primeiro livro que eu mesma li. Até hoje não sei pronunciar o nome, e também não lembro como se escreve. Mas é uma história conhecida, em que a filha paga uma dívida do pai, se casando com o rei. Por algum motivo, ela teria que transformar palha em ouro e assim se desvenda a história.

O que acho legal é que o primeiro livro que li sozinha quando criança fazia e faz muito mais sentido do que o que o meu pai lia perfeitamente e diariamente para mim.

 

Este é o filme que marcou uma geração e transformou o livro de Richard Bach num best-seller que vendeu 40 milhões de cópias e viajou por 70 países do mundo. Foi indicado ao Oscar® 1974 (Melhor Fotografia e Melhor Montagem) apresenta uma trilha sonora ganhadora do Grammy® e do Globo de Ouro®, do lendário Neil Diamond.



{Outubro 17, 2010}   Canaã

A floresta tropical é o esplendor da força na desordem. Árvores de todos os tamanhos e de todas as feições; árvores que se alteiam, umas eretas, procurando emparelhar-se com as iguais e desenhar a linha de uma ordem ideal, quando outras lhes saem ao encontro, interrompendo a simetria, entre elas se curvam e derreiam até o chão a farta e sombria coma.

Árvores, umas largas, traçando um raio de sombra para acampar um esquadrão, estas de tronco pejado que cinco homens unidos não abarcariam, aquelas tão leves e esguias erguendo-se para espiar o céu, e metendo a cabeça por cima do imenso chão verde e trêmulo, que é a copa de todas as outras. Há seiva para tudo, força para a expansão da maior beleza de cada uma. Toda aquela vasta flora traduz a Antiguidade e a vida. Não se sente nela sombra de um sacrifício que seria o triunfo e o prêmio da morte. Dentro, as parasitas se enroscam pelos velhos troncos, com a graça de um adorno e de uma carícia. Há mesmo árvores que são mães de árvores e suportam com fácil e poderosa galhardia a filha, que lhe sai do regaço, e mais esplendorosa, às vezes, que a rija e bela progenitora. Uma infinita variedade de arbustos cresce às plantas dos gigantes verdes; é uma florazinha miúda, compacta e atrevida, dentro do bojo de outra mais ampla e opulenta. E tudo se ergue, e tudo se expande sobre a terra, compondo um conjunto brutal, enorme, feito de membros aspérrimos, entretecido no alto pela cabeleira basta e densa das árvores e embaixo pela rede intérmina das fortes e indomáveis raízes; todo ele se entrelaça, enroscando-se pelos braços gigantescos, prendendo-se como por tenazes numa grande solidariedade orgânica e viva…

Pelas frestas das árvores, pela transparência das folhas, desce uma claridade discreta, e nessa suave iluminação se desenrola dentro do mato o cenário pomposo das cores. Elas são em si vivas e quentes, mas a gradação da sombra, que ora avança, ora se afasta, comunica-lhes da negrura do verde ao desmaio do branco a matização completa, triunfal. E lá em cada boca da estrada, as portas da mata formam um círculo longínquo, azulado, como portas feitas só de luz, e de uma luz zodiacal e docemente infinita… De todo o corpo colossal, das folhas novas e das folhas mortas, dos troncos verdes e dos troncos carunchosos, das parasitas, das orquídeas, das flores selvagens, da resina que se derrama vagarosa ao longo das árvores, dos pássaros, dos insetos, dos animais ocultos no segredo da selva, se desprende um cheiro misterioso e singular, que se volatiliza e se difunde no imenso todo, e, tal como o aroma das catedrais, acalma, embriaga e adormece as coisas. Na volúpia harmoniosa desse perfume, que é acre e tonteante, com a claridade que é branda, está a fonte do repouso da mata… O silêncio que mora na floresta é tão profundo, tão sereno, que parece eterno. Feito das vozes baixas, dos murmúrios, dos movimentos rítmicos dos vegetais, é completo e absoluto na sua perfeita harmonia. Se por entre as folhas secas amontoadas no solo se escapa um réptil, então o ligeiro farfalhar delas corta a doce combinação do silêncio; há no ar uma deslocação fugaz como um relâmpago, pelos nervos de todo o mato perpassa um arrepio, e os viajantes que caminham, cheios de solidão augusta, voltam-se inquietos, sentindo no corpo o frio elétrico e instantâneo do pavor…

– Extraordinário ! – disse Lentz saindo do seu espanto.

Milkau replicou:

– A sensação que aqui recebemos é muito diferente da que nos deixa a paisagem européia.

E, mirando para o alto e para a frente, continuou:

– Aqui o espírito é esmagado pela estupenda majestade da natureza… Nós nos dissolvemos na contemplação. E, afinal, aquele que se perde na adoração é o escravo da hipnose: a personalidade se escapa para se difundir na alma do Todo… A floresta no Brasil é sombria e trágica. Ela tem em si o tédio das coisas eternas. A floresta européia é mais diáfana e passageira, transforma-se infinitamente pelos toques da morte e da ressureição, que nela se revezam como os dias e as noites.

– Mas este espetáculo de uma grande mata brasileira é assombroso, não é? – interrogou Lentz.

– É. A verdade, porém, é que, ao tocarmos a região do assombro, tal espetáculo nos priva da liberdade de ser, e afinal nos constrange. É o que sucede com esta força, esta luz, esta abundância. Nós passamos por aqui em êxtase, não compreendemos o mistério…

E, mudos, continuavam a caminhar pela estrada coberta, os olhos ambos a desmancharem-se de admiração.

Leia mais: ARANHA, Graça. Canaã. Rio de Janeiro: Ediouro, 1995. p.23,24



{Agosto 27, 2010}   O espelho mágico

>Venha, seja como a gente, ouça um novo conto, você vai gostar, laralaralala< (vinheta)

Você está cansado de ouvir sempre os mesmos contos de fadas?

Então nosso programa é a solução.

A hora de um novo conto

Hoje, ouça um conto que vai deixar você enfeitiçado:

O espelho Mágico,

De Cícero Salvino de Oliveira

(Contos tradicionais do Brasil)

Um rapaz caminhava, em busca de um rumo para sua vida, ele viu uma pedra tapando um formigueiro, e várias formigas tentando retirá-la. Ele, com um bom coração, foi até lá e retirou a pedra, com muito cuidado.

Uma das formigas, agradecida falou:

– Quando precisar é só falar: valha-me o rei das formigas.

Mais adiante ele encontrou um carneiro com a pata presa em um arame. Soltou o bichinho, que falou:

– Quando tiver uma dificuldade, diga: Valha-me o rei dos carneiros.

Mais longe, ele viu um peixe que agonizava em uma poça rasa. Ele o tirou de lá e o colocou dentro da lagoa. O peixe disse:

– Quando estiver em dificuldades, diga: Valha-me o rei dos peixes.

Quase chegando ao reino, o rapaz viu um gavião morrendo de sede, e deu-lhe água, depois o soltou, e o gavião lhe falou:

– Quanto precisar de ajuda, é só falar: Valha-me o rei dos pássaros.

Chegando ao reinado, o rapaz soube que a princesa tinha um espelho mágico que mostrava todas as coisas escondidas. O espelho só tinha forças de meia-noite até o primeiro cantar do galo. Quem se escondesse e a princesa não descobrisse, casava com ela e se ela achasse, perdia o homem a vida. O pretendente tinha três noites para lograr sucesso. O rapaz foi se oferecer para essa aventura.

O rapaz então se ofereceu para participar do desafio.

Na primeira noite, procurou um canto qualquer, e disse:

– Valha-me o Rei dos Carneiros.

O carneiro apareceu, e o rapaz lhe contou o que precisava.

– Monte nas minhas costas – disse o carneiro

E o levou para uma gruta, e o cobriu de carneiros.

Assim que meia-noite chegou a princesa pôs-se a procurar pelo rapaz. Depois de algum tempo, o achou.

No dia seguinte…

– Onde eu estava escondido?

– Deitado no chão de uma gruta, coberto por carneiros.

– Era isso mesmo.

Na segunda noite, o rapaz apelou para o peixe, à beira-mar.

– Valha-me o Rei dos Peixes.

O peixe apareceu e mandou um tubarão engolir o rapaz, e uma balei engolir o tubarão, e foram para o fundo do mar.

Mas a princesa o descobriu.

No dia seguinte.

– Onde eu passei a noite?

– Dentro de um tubarão, este dentro de uma baleia, no fundo do mar.

– Era isso mesmo.

Na terceira e última noite do desafio, o rapaz chamou o gavião.

– Valha-me o Rei dos Pássaros.

O gavião, ao saber da situação, levou-o nas costas através das nuvens, e lá apareceu um gavião maior, que cobriu os dois.

Mas a princesa o achou.

No dia seguinte.

– Onde eu dormi esta noite?

– Em cima de um gavião, coberto por outro, acima das nuvens.

– Era isso mesmo.

Como ele esgotou suas chances, foi condenado à morte, mas a princesa, com pena do pobre rapaz, deu-lhe mais uma noite.

Ele então apelou para a formiga.

– Valha-me o Rei das Formigas.

A formiga, após ouvir a história do rapaz, disse:

– O espelho descobriu você na terra, no mar e nos ares, mas o espelho não pode ver a própria princesa. Eu vou transformá-lo numa formiga por essa noite, e você deverá subir pelo vestido da princesa, e esconder-se.

O rapaz virou uma formiga, entrou no palácio, foi ao quarto da princesa, subiu pelo seu vestido, bem devagar para ela não sentir, e escondeu-se na bainha da camisa.

À meia-noite, a princesa procurou o rapaz por toda parte, e nada de ver onde ele estava dormindo. Passou-se a hora das forças do espelho encantado, e ela não viu coisa alguma.

Amanheceu o dia, e o rapaz voltou a ser gente, e ela veio perguntar-lhe onde passara a noite.

– Não sei onde você dormiu! Onde foi?

– Não digo enquanto não me casar com você.

Eles se casaram com uma enorme festa, e só depois de casados, é que o moço disse onde tinha passado a última noite de solteiro.

Colaboradoras: Amanda, Julia, Mariana, Thaís, Camila – 1ºEM



{Julho 16, 2010}   Shakespeare


Alguns links

http://pt.wikipedia.org/wiki/William_Shakespeare


O mercador de Veneza:

http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2354


Trechos:

http://virtualbooks.terra.com.br/freebook/shakespeare/index.htm


Para baixar algumas peças:

http://virtualbooks.terra.com.br/freebook/shakespeare/teatro.htm


Boa leitura, boas férias!



{Julho 16, 2010}   Enquanto dura a festa

Eles estão lá embaixo, chorando o morto: Mamãe, meus irmãos, meus tios, meus primos primeiros, meus primos segundos, os amigos, os inimigos, os vizinhos, os caridosos, os curiosos, os que iam passando, os que souberam, os que gostam de ver defunto ou gente chorando – todo mundo. Às vezes tudo fica tão silencioso, que começo a dormir; mas logo alguém grita ou há um choro desatinado, e eu rolo na cama, com o travesseiro grudado no rosto, xingando. Não se cansam? Desde a madrugada isso.

Na hora que ele morreu, minha irmã veio gritando pela casa como se fosse o fim do mundo; acordei com o coração na garganta, quase que eu também morro. Levantei do jeito que estava, só de cueca, e fui correndo ao quarto dele. Mamãe estava lá, na cabeceira da cama, desesperada. Corri ao telefone e chamei o médico. O médico veio, examinou, abanou a cabeça. “Não! Não”, gritava Mamãe. Estava uma cena ridícula:o velho morto, na cama, de olhos arregalados e boca aberta; Mamãe, de camisola e descabelada, agarrando Papai e gritando; minha irmã, também só de camisola, agarrada a Mamãe e gritando; o médico de terno e gravata (afinal ele não correu tanto assim como disse: ele não teve tempo de pentear o cabelo e de pôr a gravata?), e eu só de cueca. Lembrei-me desses quadros: “À cabeceira do morto”. Só que neles nunca aparece um sujeito de cueca, e os mortos têm sempre uma expressão bela e serena. A expressão de meu pai era a última coisa do mundo que se poderia chamar de bela e serena: era horrível, uma expressão de dor, pavor e desespero. Se eu acreditasse em inferno, diria que meu pai àquela hora estava vendo o inferno. Depois arranjaram a cara dele: fecharam seus olhos e amarraram um pano ao redor do rosto. Chamam isso de “respeito pelos mortos”. Eu queria ver, num velório, um morto com aquela cara que tinha meu pai. Mas um morto não tem direito nem mais à própria cara…

Logo a casa se encheu de gente. Primeiro vieram os vizinhos, os parentes; depois os outros. Eles arranjaram tudo. Meu irmão casado veio logo e tomou as providências necessárias. Na hora de botar o velho no caixão, eu ajudei, pegando os pés dele. Depois vim para o quarto. Espero que ninguém venha aqui me chamar. Eu já avisei. Eles sabem como eu sou. A morte do velho não muda nada: eu não tinha nada com ele em vida, por que vou ter agora que ele está morto?

“Meus sentidos pêsames”- os palhaços. Um chegou com cara de pêsames mais caprichada do mundo e, na hora de me estender a mão: “Meus parabéns”- e nem deu pela coisa. Quase estourei numa risada. Há os que chegam e não falam nada, só dão uns tapinhas e ficam um pouco abraçados com a gente. Nogueira foi um desses. Chegou e me deu uns tapinhas nas costas – mas eu não estendia um dedo para o filho da puta. Nogueira devia um milhão para Papai, que vivia atrás dele, cobrando. Mas o desgraçado sumia, que ninguém achava; e quando dava azar de ser encontrado, prometia que viria aqui em casa acertar tudo. Papai não acreditava, claro; mas já andava cansado e doente, não queria complicação.

Um milhão. Agora o velho morreu, e Nogueira aparece todo santinho, todo compungido, todo minhas-condolências. “Evitem de ele ter aborrecimentos fortes”, dizia o médico. Um milhão é um aborrecimento forte. Eu devia ter perguntado para o Nogueira: “Cadê o dinheiro?” Devia ter perguntado para ele ali, diante dos outros, na vista de todo mundo. “Cadê dinheiro? Cadê o milhão que você deve para Papai? “Envergonhá-lo, humilhá-lo, mostrar que ele foi um dos que ajudaram a matar o velho; fazê-lo ajoelhar diante do caixão e esfregar o nariz dele nos pés do defunto, fazê-lo pedir perdão, depois tocá-lo de casa a pontapés. Devia ter feito isso. Devia tê-lo arrasado, de tal modo que ele jamais se esquecesse disso, assim como os que tivessem visto a cena. Que isso ficasse em sua memória como um risco de faca na cara.

Bondade diante do caixão: o morto não precisa dela, ele está morto. Felizmente ele está morto. “Seu pai foi um santo homem”, me disse o vizinho, o que Papai, em casa, chamava de crápula; como ele, em sua rodinha, chamaria Papai? Santo homem… Nunca, Papai nunca foi isso. Era um homem egoísta, às vezes cruel, um marido desconfiado, um pai sem carinho, um filho distante. Mas se, durante a vida dele, essas pessoas que estão lá embaixo agora tivessem chorando um pouco por ele, sido boas com ele, talvez ele tivesse sido melhor. Mas, vê-se, elas estavam esperando primeiro ele morrer. Ser bom com os vivos dá muito trabalho: amanhã ele estará morto, e iremos chorar sobre o seu cadáver -assim é mais fácil.

Santo homem (quem eles pensam que estão enganando? o morto? eles mesmos? os parentes do morto?): quando alguém diz isso, Mamãe chora, minha irmã chora, meu irmão chora, todo mundo chora. É como uma festa, uma festa fúnebre, em que, o invés de rir, todo mundo chora e se embriaga com lágrimas, enquanto piedosas mentiras são ditas à meia-voz por rostos falsamente compungidos. E, no meio de tudo isso, o morto – a causa, o pretexto, o ornamento. Sua alma já descansou, mas seu corpo ainda deve permanecer, enquanto dura a festa.

Colaboração: Pedro Afonso – 1º AD



{Julho 16, 2010}   Ironicamente otimista

“Não tem porque ser pessimista.Não vai funcionar mesmo.”


Não deixe para depois

o que agora pode ser feito

desencane, reveja conceitos, dê o melhor de si

Por que, se acabas triste e desolado?

Chorando mágoas sem fim?

Achas que mudará a situação

com essa atitude chinfrim?


Por que em qualquer ocasião

tu sempre vês o lado ruim da situação?

Vês mudanças com maus olhos

Vês virtudes como pecados

O que há, meu deus, de errado

em possuir esperança

almejar se nem tudo é desgraça

que nem tudo é vingança?


Pois sim, é claro otimismo demais é engano

Então veremos tudo com cuidado

o lado bom e o ruim

Porém, não se limite a achar

que faz muito apenas sentado

de um lado dizendo

como tudo está caótico

como tudo está acabado

Como dizia Saramago

“Não sou pessimista, o mundo é que é péssimo”


Mas nunca desista de seus sonhos

Pois existem duas palavras

que abrem muitas portas…

Puxe e empure!


Alunas (o): Maria Isabel, Jéssica Bruna, Lucas



{Julho 16, 2010}   Cidade de Deus

O nome dele é João Romeiro, mas é conhecido como Zinho na Cidade de Deus, uma favela em Jacarepaguá, onde comanda o tráfico de drogas. Ela é Soraia Gonçalves, uma mulher dócil e calada. Soraia soube que Zinho era traficante dois meses depois de estarem morando juntos num condomínio de classe média alta da Barra da Tijuca. Você se importa?, Zinho perguntou, e ela respondeu que havia tido na vida dela um homem metido a direito que não passava de um canalha. No condomínio Zinho é conhecido como vendedor de uma firma de importação. Quando chega uma partida grande de droga na favela Zinho some durante alguns dias. Para justificar sua ausência Soraia diz, para as vizinhas que encontra no playground ou na piscina, que o marido está viajando pela firma. A polícia anda atrás dele, mas sabe apenas o seu apelido, e que ele é branco. Zinho nunca foi preso.

Hoje à noite Zinho chegou em casa depois de passar três dias distribuindo, pelos seus pontos, cocaína enviada pelo seu fornecedor em Puerto Suarez e maconha que veio de Pernambuco. Foram para a cama. Zinho era rápido e rude e depois de foder a mulher virava as costas para ela e dormia. Soraia era calada e sem iniciativa, mas Zinho queria ela assim, gostava de ser obedecido na cama como era obedecido na Cidade de Deus.

“Antes de você dormir posso te perguntar uma coisa?”

“Pergunta logo, estou cansado e quero dormir, amorzinho.”

“Você seria capaz de matar uma pessoa por mim?”

“Amorzinho, eu mato um cara porque ele me roubou cinco gramas, não vou matar um sujeito que você pediu? Diz quem é o cara. É aqui do condomínio?”

“Não”.

“De onde é?”

“Mora na Taquara”.

“O que foi que ele te fez?”

“Nada. Ele é um menino de sete anos. Você já matou um menino de sete anos?”

“Já mandei furar a bala as palmas das mãos de dois merdinhas que sumiram com uns papelotes, pra servir de exemplo, mas acho que eles tinham dez anos. Por que você quer matar um moleque de sete anos?”

“Para fazer a mãe dele sofrer. Ela me humilhou. Tirou o meu namorado, fez pouco de mim, dizia para todo mundo que eu era burra. Depois casou com ele. Ela é loura, tem olhos azuis e se acha o máximo.”

“Você quer se vingar porque ela tirou o seu namorado? Você ainda gosta desse puto, é isso?”

“Gosto só de você, Zinho, você é tudo para mim. Esse merda do Rodrigo não vale nada, só sinto desprezo por ele. Quero fazer a mulher sofrer porque ela me humilhou, me chamou de burra, ria na frente dos outros.”

“Posso matar esse puto.”

“Ela nem gosta dele. Quero fazer essa mulher sofrer muito. Morte de filho deixa a mãe desesperada.”

“Está bem. Você sabe onde o menino mora?”

“Sei.”

“Vou mandar pegar o moleque e levar para a Cidade de Deus.”

“Mas não faz o garoto padecer muito.”

“Se essa puta souber que o filho morreu sofrendo é melhor, não é? Me dá o endereço. Amanhã mando fazer o serviço, a Taquara é perto da minha base.”

De manhã bem cedo Zinho saiu de carro e foi para a Cidade de Deus. Ficou fora dois dias. Quando voltou, levou Soraia para a cama e ela docilmente obedeceu a todas as suas ordens, Antes de ele dormir, ela perguntou, “você fez aquilo que eu pedi?”

“Faço o que prometo, amorzinho. Mandei meu pessoal pegar o menino quando ele ia para o colégio e levar para a Cidade de Deus. De madrugada quebraram os braços e as pernas do moleque, estrangularam, cortaram ele todo e depois jogaram na porta da casa da mãe. Esquece essa merda, não quero mais ouvir falar nesse assunto”, disse Zinho.

“Sim, eu já esqueci.”

Zinho virou as costas para Soraia e dormiu. Zinho tinha um sono pesado. Soraia ficou acordada ouvindo Zinho roncar. Depois levantou-se e pegou um retrato de Rodrigo que mantinha escondido num lugar que Zinho nunca descobriria. Sempre que Soraia olhava o retrato do antigo namorado, durante aqueles anos todos, seus olhos se enchiam de lágrimas. Mas nesse dia as lágrimas foram mais abundantes.

“Amor da minha vida”, ela disse, apertando o retrato de Rodrigo de encontro ao seu coração sobressaltado.


Rubem Fonseca. Histórias de Amor. Cia. das Letras: São Paulo, 1997.

Colaboração: Evelyn Carolina 1ºAD



{Julho 9, 2010}   O espelho mágico

O rapaz, órfão de pai e mãe, saiu pelo mundo para ganhar a vida. Ia por um caminho quando viu uma pedra tapando a boca de um formigueiro e as formigas lutando para arredá-la. O moço que tinha bom coração, abaixou-se e tirou a pedra com cuidado para não matar as formigas. Quando acabou, uma formiguinha falou:

– Se você se encontrar em dificuldades, diga: “Valha-me o Rei das formigas.”

O rapaz seguiu sua estrada e adiante encontrou um carneiro com uma pata enganchada num arame. Soltou o bichinho. O carneiro disse:

– Quando você tiver uma dificuldade, diga: “Valha-me o Rei dos carneiros.”

Lá mais longe o rapaz viu um peixe dentro duma poça d’água rasa, quase se acabando. O peixe estava com o lombo de fora, morrendo. O moço tirou-o da poça e sacudiu numa lagoa perto. O peixe mergulhou, foi embaixo, veio em cima, e falou:

– Quando você tiver uma dificuldade, diga: “Valha-me o Rei dos peixes.”

Quase avistando o reinado, o rapaz encontrou um gavião deitado no chão, seco de sede. Levou-o, deu-lhe um banho, deixou ele beber água e soltou. O gavião voou para um galho de pau e disse:

– Quando você tiver uma dificuldade, diga: “Valha-me o Rei dos pássaros.”

Chegando no reinado, o rapaz soube que a princesa tinha um espelho mágico que mostrava todas as coisas escondidas. O espelho só tinha forças de meia-noite até o primeiro cantar do galo. Quem se escondesse e a princesa não descobrisse, casava com ela e se ela achasse, perdia o homem a vida. O pretendente tinha três noites para lograr sucesso. O rapaz foi se oferecer para essa aventura.

Na primeira noite, procurou um canto fora do reinado e disse: “Valha-me o Rei dos carneiros!” O carneiro apareceu e o rapaz disse o que queria.

– Monte nas minhas costas! – O rapaz montou e o carneiro largou-se correndo, de mato a dentro, para umas brenhas fechadas onde havia uma gruta. Deitou o rapaz na gruta e encheu os arredores de carneiros, uns por cima dos outros, que ninguém via outra coisa afora carneiro.

À meia-noite, a moça puxou o espelho e procurou o rapaz, por todos os lados. Tanto virou que deu com a gruta e o espelho mostrou o rapaz deitado no chão, coberto de carneiros. A princesa tomou nota e foi dormir.

No outro dia o rapaz se apresentou.

– Onde eu estava escondido?

– Deitado no chão, dentro de uma gruta, rodeado de carneiros. – respondeu a princesa.

– Era isso mesmo.

O rapaz apelou para o peixe. Foi à beira-mar e chamou: “Valha-me o Rei dos peixes!” O peixe riscou na praia. O moço contou sua dificuldade. O Rei dos peixes mandou um tubarão engolir o rapaz e uma baleia engolir o tubarão e foi para o fundo do mar.

À meia-noite, a princesa foi consultar o espelho. Caçou na terra e nos ares e procurou os mares, com tanto cuidado que descobriu onde o rapaz estava dormindo. Na manhã, o moço apareceu e perguntou:

– Onde eu passei a noite?

– Dentro de um tubarão que estava dentro de uma baleia, no fundo do mar!

– Era isso mesmo.

Dessa vez o rapaz chamou o gavião e contou sua agonia. O gavião levou-o nas costas até em cima das nuvens e lá apareceu um outro gavião ainda maior que cobriu o Rei dos pássaros com suas asas.

À meia-noite, a princesa procurou o rapaz nas águas e na terra e não achou. Procurou nos ares e não viu. Tanto olhou e olhou que enxergou um pontinho escuro por cima das nuvens. Botou reparo e descobriu tudo.

O rapaz, na manhã seguinte, veio ao palácio e perguntou:

– Onde dormi a noite passada?

– Em cima de um gavião, coberto por outro, em cima das nuvens!

– Era isso mesmo!

Como era a terceira tentativa, o rapaz foi condenado à morte, mas a princesa ficou com pena dele e pediu ao rei para deixar o moço experimentar uma vez mais. O rapaz ficou contente e foi valer-se do rei das formigas. Esse ouviu a conversa toda e disse:

– O espelho descobriu você na terra, no mar e nos ares. Mas o espelho não pode ver a própria princesa. Eu vou virar você numa formiga e você suba para cima do vestido dela e esconda-se bem.

Dito e feito. O rapaz virou formiga, entrou no palácio, foi ao quarto da princesa e subiu pelo vestido acima, bem devagar para ela não pressentir, e escondeu-se na bainha da camisa.

À meia-noite, a princesa procurou o rapaz em toda parte, virou e mexeu, e nada de ver onde ele estava dormindo Passou-se a hora das forças do espelho encantado e ela não viu coisa nenhuma. Amanheceu o dia e o rapaz voltou a ser gente e veio perguntar onde tinha dormido.

– Não sei onde você dormiu! Onde foi?

– Não digo enquanto eu não me casar com você!

Fizeram o casamento com muita festa e só depois de casado é que o moço disse onde tinha passado a última noite de solteiro.

Cícero Salvino de Oliveira

Alexandria, Rio G. do Norte

Nota: É o Mt. 329 de Aarne-Thompson, Hiding from the Devil. Antii Aarne informa que esse motivo é popular na literatura oral da Europa Central, Finlândia, Dinamarca, Rússia, Grécia, etc. As características, que ocorrem na presente versão brasileira, são: a obrigação de os candidatos à mão da princesa esconderem-se dela. H. 321; tinha a princesa janelas ou espelhos mágicos, D1323:3; os vencidos eram decapitados, H. 901:I e Q 405; o herói merece a gratidão dos animais, D 684; perde duas vezes, e transformando-se em inseto, esconde-se na própria princesa, D 641; e com ela se casa, L161. Na minha versão a princesa não estava encantada como no elemento D700.

CASCUDO, Câmara. Contos tradicionais do Brasil. São Paulo: Global, 2000. 8ª ed.



Num bairro de um subúrbio qualquer, uma simpática menina negra de pequenos olhos castanho-escuros está sentada na calçada de cimento grosso e mal-acabado de sua casa enquanto brinca com um travesseiro que é a sua boneca preferida, na interminável tentativa da criança que deseja ocupar o papel de mãe pelo puro exercício da repetição. Na falta de bonecas, Ióli vestiu em um travesseiro uma camisa branca estampada com propaganda em letras vermelhas de algum partido político e um short surrado, desses ganhos em qualquer quermesse bem-intencionada preocupada em oferecer algum conforto aos pobres. Ela acha que não fica bem para boneca alguma andar por aí sem roupa.

Esta menina, rechonchuda devido à ingestão de carboidratos baratos como pão, macarrão e arroz, mas desnutrida, cuja barriga raramente digere frutas e legumes, artigos de luxo em famílias pobres alimentadas com cestas básicas de caridade, usa roupas concedidas por estranhos freqüentadores de templos da fé onde, na maioria das vezes, é possível encontrar alguns pobres de espírito com armários abarrotados de peças de roupa de grife.

Ióli vive num bairro ocupado por moradores de baixíssima renda, onde existem inúmeras igrejas, de diferentes denominações, e nenhuma agência bancária. Cidades desenvolvidas podem ser medidas pela contagem de bancos. Cidades esquecidas podem ser medidas pelo número de igrejas.

Esta menina cor de chocolate ao leite tem os pés chatos e as pernas tortas, por isso usa sistematicamente umas implacáveis botas ortopédicas, que Ióli só tira para dormir. Essas botas, fruto da boa vontade da mãe de uma menina vizinha que calçava um número menor que o seu, provocam fortes dores nos pés da garota, que detestará sapatos para o resto da vida.

Há cinco dias, esta pequena canhota chora a ausência da mãe, inesperadamente desaparecida após uma ida repentina ao hospital público mais próximo. Em sua humilde casa, coberta por tijolos, pedaços de madeira e lona, reina um silêncio amarelo carregado de angústia. Ninguém tem autorização para comentar a ausência da mãe, nem mesmo as vizinhas fofoqueiras com muitos filhos criados, atualmente ocupadas com a vida alheia. Ióli resolve brincar enquanto ainda há tempo.

No seu momento mais dramático, Ióli aperta e abraça a bonequinha-travesseiro improvisada, procurando sentir o cheiro da mãe. Nessa casa igual a tantas outras, ninguém almoça, ninguém janta nem toma banho. É assim quando não tem nenhuma mãe por perto. Todo mundo fica meio perdido, meio filho desmamado, meio cachorro criado em casa, sem rumo nas ruas.

Um fato inusitado quebra o ritmo desse refrão de blues empestiado de um lamento cinza – o irmão mais velho entrou pela porta da frente a correr, sem camisa, com o seu cabelo grande e crespo despenteado e as suas pernas pretas foscas sem hidratante. O irmão grita e gesticula, totalmente descontrolado: – Mamãe morreu! Ninguém chora, ninguém grita aqui, mamãe morreu!

A cena fica muda no pequeno universo dessa criança, que despe e joga longe o travesseiro-boneca e corre descalça para o banheiro com chão de cimento gelado. Ióli decide tomar banho sozinha pela primeira vez. Abre o chuveiro e deixa a água cair na sua cabeça cheia de pensamentos nublados; ela já sabe tomar banho sozinha, mamãe ensinou. Chora e despede-se da própria infância. A menina de sete anos e oito meses escoa pelo ralo encharcado pelas suas memórias; os desenhos infantis, a comidinha da infância, as brincadeiras e todas as noites de insônia, quando dormia agarrada no braço da mãezinha. Ióli tem medo do escuro.

Na minúscula sala-quarto-cozinha, único cômodo da casa, entupida de curiosos, aparecem as três vizinhas fofoqueiras, com os olhos esbugalhados e vestidos de bolinhas de chita com esquisitos botões frontais. A mais velha, muito magra, pálida e rabugenta, segura Ióli pelo braço e, num movimento rápido, que expressa imediatamente seu temperamento autoritário, arrasta a menina com firmeza até a porta de saída da casa. Cuidar de alguém é um exercício praticado de forma doentia por adultos que, na infância, viveram a experiência do abandono.

Ióli tenta resistir. Em vão. Lembra seu aniversário de cinco anos. Naquela ocasião, a mãe confeitou o bolo com um saco de leite de vaca. Lembrou do vestido lindo que ganhou, costurado pela mãe, mas definitivamente as botas ortopédicas não combinavam com nada. Lembrança engraçada em momento triste.

A velha segue pela ladeira de paralelepípedos em seu passo apressado, sempre a praguejar e beliscar Ióli, que se deixa levar a favor da maré. Fica a pensar em como amarrar os sapatos na hora de vestir a roupa para o enterro, pois ainda não sabe amarrar os próprios sapatos. Fica a pensar se crianças podem entrar nos cemitérios, pois a morte não é assunto pra gente pequena.

Ao chegar à casa dessa tal vizinha, Ióli imagina sua vida sem a proteção da mãe. Por ora, teria que enfrentar Verônica. A velha tem uma neta da mesma idade de Ióli, a menina mais cruel da rua. Mesmo num dia trágico como aquele, a garota pega um pedaço de bombril e fica a comparar com o cabelo de Ióli, que não reage, pois está muito distante da realidade cotidiana. Nenhuma das maldades da neta estagiária do empreendimento de maldades da avó poderia furar a espessa redoma de dor e dúvidas daquela garotinha.

Todas as casas parecem iguais. Ióli cai em qualquer canto do cômodo minúsculo devidamente adornado ao centro por um enfeitado aparelho de televisão. O gordo barbudo marido da vizinha está sentado em cima de um caixote de madeira, assiste à sessão da tarde e fuma um cigarro desses bem fedidos. Parece um delegado frustrado em final de carreira. A vizinha entra impaciente e diz com voz de taquara rachada:

– Hora do almoço.

Todo mundo come sentado no chão da sala apertada com o prato na mão.

O marido parece viver em outro planeta enquanto a comida cai do prato e suja a vida real. Só desperta com o grito estridente da velha:

– Hoje só temos arroz com farinha.

Ióli remexe o prato sem apetite algum. Imagina sua volta para casa, o enterro da mãe, os seus três irmãos, a necessidade de organizar as coisas. A verdade é que na sua casa há muito tempo, ninguém almoça, ninguém janta nem toma banho. É assim quando nenhuma mãe está por perto. Lembra de um sonho antigo. Na sua fantasia de menina, sempre desejou comer um bife bem grande, do tamanho do prato, com cebola, salada, arroz, feijão e batatas fritas. Não devia faltar comida para criança alguma. Ióli deixa o prato de lado. Chora desesperadamente. É um pranto mitológico, que traduz uma angústia indescritível: a falta da mãe. Como será a vida das crianças que têm mãe e pai e comem bife com batatas fritas?

Cadernos Negros, Volume 30: Contos afro-brasileiros. Org. Esmeralda Ribeiro, Márcio Barbosa. São Paulo. Quilombhoje, 2007. P.43

Confira nova versão no blog da autora: http://cristianesobral.blogspot.com/2010/05/bife-com-batata-frita-conto-de.html



{Junho 7, 2010}   Olimpíada 10

A arte de ser avó
Rachel de Queiroz

Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu. É, como dizem os ingleses, um ato de Deus. Sem se passarem as penas do amor, sem os compromissos do matrimônio, sem as dores da maternidade. E não se trata de um filho apenas suposto, como o filho adotado: o neto é realmente o sangue do seu sangue, filho de filho, mais filho que o filho mesmo…

Quarenta anos, quarenta e cinco… Você sente, obscuramente, nos seus ossos, que o tempo passou mais depressa do que esperava. Não lhe incomoda envelhecer, é claro. A velhice tem suas alegrias, as suas compensações – todos dizem isso, embora você, pessoalmente, ainda não as tenha descoberto – mas acredita.

Todavia, também obscuramente, também sentida nos seus ossos, às vezes lhe dá aquela nostalgia da mocidade. Não de amores nem de paixões: a doçura da meia-idade não lhe exige essas efervescências. A saudade é de alguma coisa que você tinha e lhe fugiu sutilmente junto com a mocidade. Bracinhos de criança no seu pescoço. Choro de criança. O tumulto da presença infantil ao seu redor. Meu Deus, para onde foram as suas crianças? Naqueles adultos cheios de problemas que hoje são os filhos, que têm sogro e sogra, cônjuge, emprego, apartamento a prestações, você não encontra de modo nenhum as suas crianças perdidas. São homens e mulheres – não são mais aqueles que você recorda.


E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação ou do parto, o doutor lhe põe nos braços um menino. Completamente grátis – nisso é que está a maravilha. Sem dores, sem choros, aquela criancinha da sua raça, da qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela criancinha, longe de ser um estranho, é um menino seu que lhe é “devolvido”. E o espantoso é que todos lhe reconhecem o seu direito de o amar com extravagância; ao contrário, causaria escândalo e decepção se você não o acolhesse imediatamente com todo aquele amor recalcado que há anos se acumulava, desdenhado, no seu coração.

Sim, tenho certeza de que a vida nos dá os netos para nos compensar de todas as mutilações trazidas pela velhice. São amores novos, profundos e felizes, que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixados pelos arroubos juvenis.

[…]

E quando você vai embalar o menino e ele, tonto de sono, abre um olho, lhe reconhece, sorri e diz: “Vó!”, seu coração estala de felicidade, como pão ao forno.

[…]

Até as coisas negativas se viram em alegrias quando se intrometem entre avó e neto: o bibelô de estimação que se quebrou porque o menininho – involuntariamente! – bateu com a bola nele. Está quebrado e remendado, mas enriquecido com preciosas recordações: os cacos na mãozinha, os olhos arregalados, o beiço pronto para o choro; e depois o sorriso malandro e aliviado porque “ninguém” se zangou, o culpado foi a bola mesmo, não foi, Vó? Era um simples boneco que custou caro. Hoje é relíquia: não tem dinheiro que pague…

Elenco de cronistas modernos. 21ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2005.



{Junho 7, 2010}   Olimpíada 9

A bola
Luis Fernando Veríssimo

O pai deu uma bola de presente ao filho. Lembrando o prazer que sentira ao ganhar a sua primeira bola do pai. Uma número 5 sem tento oficial de couro. Agora não era mais de couro, era de plástico. Mas era uma bola.

O garoto agradeceu, desembrulhou a bola e disse “Legal!”. Ou o que os garotos dizem hoje em dia quando gostam do presente ou não querem magoar o velho. Depois começou a girar a bola, à procura de alguma coisa.

— Como e que liga? — perguntou.


— Como, como é que liga? Não se liga.

O garoto procurou dentro do papel de embrulho.

— Não tem manual de instrução?

O pai começou a desanimar e a pensar que os tempos são outros. Que os tempos são decididamente outros.

— Não precisa manual de instrução.

— O que é que ela faz?

— Ela não faz nada. Você é que faz coisas com ela.

— O quê?

— Controla, chuta…

— Ah, então é uma bola.

— Claro que é uma bola.

— Uma bola, bola. Uma bola mesmo.

— Você pensou que fosse o quê?

— Nada, não.

O garoto agradeceu, disse “Legal” de novo, e dali a pouco o pai o encontrou na frente da tevê, com a bola nova do lado, manejando os controles de um videogame. Algo chamado Monster Baú, em que times de monstrinhos disputavam a posse de uma bola em forma de bip eletrônico na tela ao mesmo tempo que tentavam se destruir mutuamente.

O garoto era bom no jogo. Tinha coordenação e raciocínio rápido. Estava ganhando da máquina.

O pai pegou a bola nova e ensaiou algumas embaixadas. Conseguiu equilibrar a bola no peito do pé, como antigamente, e chamou o garoto.

— Filho, olha.

O garoto disse “Legal”, mas não desviou os olhos da tela. O pai segurou a bola com as mãos e a cheirou, tentando recapturar mentalmente o cheiro de couro. A bola cheirava a nada. Talvez um manual de instrução fosse uma boa ideia, pensou. Mas em inglês, para a garotada se interessar.

Comédias para ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.



{Junho 7, 2010}   Olimpíada 7

A Rua do Ouvidor
Joaquim Manuel de Macedo

A Rua do Ouvidor contou diversas lojas de perfumarias, e, por consequência, devia ser a rua mais cheirosa, mais perfumada entre todas as da cidade do Rio de Janeiro.

E todavia não o era!…

Com efeito não havia nem há rua mais opulenta de aromas, de perfumes, de pastilhas odoríferas, de banhas e de pomadas de ótimo cheiro; mas tudo isso encerrado em vidrinhos, em frascos e em pequenas caixas bonitas que mantinham e mantêm a Rua do Ouvidor tão inodora como as outras de dia.

Atualmente de noite observa-se o mesmo fato.

Naquele tempo, porém, isto é, nos tempos do Demarais, e ainda depois, a Rua do Ouvidor, de fácil e reta comunicação com a praia, era uma das mais frequentadas pelos condutores dos repugnantes barris, das oito horas da noite até às dez.

A esses barris asquerosos o povo deu a denominação geralmente adotada de – tigres – pelo medo explicável que todos fugiam deles.

Esse ruim costume do passado me traz à memória informação falsa e ridícula que li, e caso infeliz e igualmente ridículo, de que fui testemunha ocular e nasal em 1839, no meu saudoso tempo de estudante.

A informação é a seguinte:

Um francês (viajante charlatão) passou pela cidade do Rio de Janeiro, e demorando-se nela alguns dias, ouviu dos patrícios da Rua do Ouvidor queixas dos incômodos tigres que frequentes passavam ali de noite. Sábio e consciencioso observador que era, o viajante tomou nota do ato, e poucos anos depois publicou, no seu livro de viagens, esta famosa notícia:

“Na cidade do Rio de Janeiro, capital do Império do Brasil, feras terríveis, os trigraves, vagam, durante a noite, pelas ruas, etc., etc.!!!”

E é assim que escreve a história!

O caso que observei foi desastroso, mas de natureza que fez rir a todos.

Pouco depois das oito horas da noite, um inglês, trajando casaca preta e gravata branca…

Entre parêntese.

Em 1839 ainda era de uso ordinário e comum a casaca; o reinado de paletó começou depois; muitos estudantes iam às aulas de casacas, e não havia senador nem deputado que se apresentasse desacasacado nas respectivas Câmaras: o paletó tornou-se eminentemente parlamentar de 1845 em diante.

Fechou-se o parênteses.

O inglês de chapéu de patente, casaca preta e gravata branca subia pela Rua do Ouvidor, quando encontrou um negro que descia, levando à cabeça um tigre para despejá-lo no mar.

O pobre africano ainda a tempo recuou um passo, mas o inglês que não sabia recuar avançou outro; o condutor do tigre encostou-se à parede que lhe ficava à mão direita, e o inglês supondo-se desconsiderado por um negro que lhe dava passo à esquerda pronunciou a ameaçadora palavra goodemi, e sem mais tir-te nem guar-te honrou com um soco britânico a face do africano, que perdendo o equilíbrio pelo ataque e pela dor, deixou cair o tigre para diante e naturalmente de boca para baixo.

Ah! Que não sei de nojo como o conte!

O Tigre ou o barril abismou em seu bojo o chapéu e a cabeça e inundou com o seu conteúdo a casaca preta, o colete e as calças do inglês.

O negro fugiu acelerado, e a vítima de sua própria imprudência, conseguindo livrar-se do barril, que o encapelara, lançou-se a correr atrás do africano, sacudindo o chapéu em estado indizível, e bradando furioso:

— Pegue ladron! Pegue ladron!…

Mas qual – pega ladron! -: todos se arredavam de inocente e malcheiroso negro que fugia, e ainda mais o inglês, tornado tigre pela inundação que recebera.

Era geral o coro de risadas na Rua do Ouvidor.

O inglês, perdendo enfim de vista o africano, completou o caso com um remate pelo menos tão ridículo como o seu desastre. Voltando rua acima, parou em frente de numeroso grupo de gente que testemunhara a cena, e ria-se dela.

Ainda hoje o estou vendo; o inglês parou, e sempre a sacudir o chapéu olhou iroso para o grupo e disse mas disse com orgulhosa gravidade britânica:

— Amanhã faz queixa a ministro da Inglaterra, e há de ter indenização de chapéu e de casaca perdidas.

Ah! Eu creio que então a melhor das risadas que romperam foi a minha gostosa, longa e repetida risada de estudante feliz e alegrão.

É inútil dizer que não houve questão diplomática. A Inglaterra ainda não se tinha feito representar no Brasil por Mr. Christie, o único capaz (depois do jantar) de exigir indenização do chapéu e da casaca que o patrício perdera.

Não foi este único desastre que os tigres ocasionaram, foram muitos e todos mais ou menos grotescos, e sei de um outro (além da encapelação do inglês) ocorrido na Rua do Carmo hoje Sete de Setembro, que de súbito desfez as mais doces esperanças do casamento inspirado e desejado por mútuo amor.

O namorado era estudante, meu colega e amigo; estava perdidamente apaixonado por uma viúva, viuvinha de dezoito anos, e linda como os amores.

Uma noite, a bela senhora estava à janela, e à luz de fronteiro lampião viu o namorado que, aproveitando o ponto do mais vivo clarão iluminador, lhe mostrava, levando-o ao nariz, um raminho de lindas flores, que ia enviar-lhe, quando nesse momento o cego apaixonado esbarrou com um condutor de tigre, e, embora não encapelado, foi quase tão infeliz como o inglês.

O pior do caso foi que a jovem adorada incorreu no erro quase inevitável de desatar a rir, e logo depois de fugir da janela por causa do mau cheiro de que se encheu a rua.

O namorado ressentiu-se do rir impiedoso da sua esperançosa e querida noiva; amoroso, porém, como estava, dois dias depois tornou a passar diante das queridas janelas.

No erro; a formosa viúva, ao ver o estudante, saudou-o doce, ternamente, mas levou o lenço a boca para dissimular o riso lembrador de ridículo infortúnio.

O estudante deu então solene cavaco, e não apareceu mais à bela viuvinha.

Um tigre matou aquele amor.

Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: Perseverança, 1878.



{Maio 28, 2010}   Olimpíada 6

Pavão
Rubem Braga

Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d’água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas. Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.

Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico.

Ai de ti, Copacabana. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1960.



{Maio 28, 2010}   Olimpíada 5

Cobrança
Moacyr Scliar

Ela abriu a janela e ali estava ele, diante da casa, caminhando de um lado para outro. Carregava um cartaz, cujos dizeres atraíam a atenção dos passantes: “Aqui mora uma devedora inadimplente.”

— Você não pode fazer isso comigo — protestou ela.

— Claro que posso — replicou ele. — Você comprou, não pagou. Você é uma devedora inadimplente. E eu sou cobrador. Por diversas vezes tentei lhe cobrar, você não pagou.

— Não paguei porque não tenho dinheiro. Esta crise…

— Já sei — ironizou ele. — Você vai me dizer que por causa daquele ataque lá em Nova York seus negócios ficaram prejudicados. Problema seu, ouviu? Problema seu. Meu problema é lhe cobrar. E é o que estou fazendo.

— Mas você podia fazer isso de uma forma mais discreta…

— Negativo. Já usei todas as formas discretas que podia. Falei com você, expliquei, avisei. Nada. Você fazia de conta que nada tinha a ver com o assunto. Minha paciência foi se esgotando, até que não me restou outro recurso: vou ficar aqui, carregando este cartaz, até você saldar sua dívida.

Neste momento começou a chuviscar.

— Você vai se molhar — advertiu ela. — Vai acabar ficando doente.

Ele riu, amargo:

— E daí? Se você está preocupada com minha saúde, pague o que deve.

— Posso lhe dar um guarda-chuva…

— Não quero. Tenho de carregar o cartaz, não um guarda-chuva.

Ela agora estava irritada:

— Acabe com isso, Aristides, e venha para dentro. Afinal, você é meu marido, você mora aqui.

— Sou seu marido — retrucou ele — e você é minha mulher, mas eu sou cobrador profissional e você é devedora. Eu a avisei: não compre essa geladeira, eu não ganho o suficiente para pagar as prestações. Mas não, você não me ouviu. E agora o pessoal lá da empresa de cobrança quer o dinheiro. O que quer você que eu faça? Que perca meu emprego? De jeito nenhum. Vou ficar aqui até você cumprir sua obrigação.

Chovia mais forte, agora. Borrada, a inscrição tornara-se ilegível. A ele, isso pouco importava: continuava andando de um lado para outro, diante da casa, carregando o seu cartaz.

O imaginário cotidiano. São Paulo: Global, 2001.



{Maio 28, 2010}   Olimpíada 4

Peladas
Armando Nogueira

Esta pracinha sem aquela pelada virou uma chatice completa: agora, é uma babá que passa, empurrando, sem afeto, um bebê de carrinho, é um par de velhos que troca silêncios num banco sem encosto.

E, no entanto, ainda ontem, isso aqui fervia de menino, de sol, de bola, de sonho: “Eu jogo na linha! eu sou o Lula!; no gol, eu não jogo, tô com o joelho ralado de ontem; vou ficar aqui atrás: entrou aqui, já sabe”. Uma gritaria, todo mundo se escalando, todo mundo querendo tirar o selo da bola, bendito fruto de uma suada vaquinha.

Oito de cada lado e, para não confundir, um time fica como está; o outro joga sem camisa.

Já reparei uma coisa: bola de futebol, seja nova, seja velha, é um ser muito compreensivo que dança conforme a música: se está no Maracanã, numa decisão de título, ela rola e quiçá com um ar dramático, mantendo sempre a mesma pose adulta, esteja nos pés de Gérson ou nas mãos de um gandula.

Em compensação, num racha de menino ninguém é mais sapeca: ela corre para cá, corre para lá, quica no meio-fio, para de estalo no canteiro, lambe a canela de um, deixa-se espremer entre mil canelas, depois escapa, rolando, doida, pela calçada. Parece um bichinho.

Aqui, nessa pelada inocente é que se pode sentir a pureza de uma bola. Afinal, trata-se de uma bola profissional, uma número cinco, cheia de carimbos ilustres: “Copa Rio-Oficial”, “FIFA — Especial”. Uma bola assim, toda de branco, coberta de condecorações por todos os gomos (gomos hexagonais!), jamais seria barrada em recepção do Itamaraty.

No entanto, aí está ela, correndo para cima e para baixo, na maior farra do mundo, disputada, maltratada até, pois, de quando em quando, acertam-lhe um bico, ela sai zarolha, vendo estrelas, coitadinha.

Racha é assim mesmo: tem bico, mas tem também sem-pulo de craque como aquele do Tona, que empatou a pelada e que lava a alma de qualquer bola. Uma pintura.

Nova saída.

Entra na praça batendo palmas como quem enxota galinha no quintal. É um velho com cara de guarda-livros que, sem pedir licença, invade o universo infantil de uma pelada e vai expulsando todo mundo. Num instante, o campo está vazio, o mundo está vazio. Não deu tempo nem de desfazer as traves feitas de camisas.

O espantalho-gente pega a bola, viva, ainda, tira do bolso um canivete e dá-lhe a primeira espetada. No segundo golpe, a bola começa a sangrar. Em cada gomo o coração de uma criança.

Os melhores da crônica brasileira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1977.



{Maio 24, 2010}   Olimpíada 2

O amor acaba
Paulo Mendes Campos

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania1 da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

1. No sentido literário, epifania é um momento privilegiado de revelação quando ocorre um evento que “ilumina” a vida da personagem.

O amor acaba – Crônicas líricas e existenciais. 2ª- ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.



{Maio 22, 2010}   Olimpíada 1

A Última Crônica

Fernando Sabino




A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever.

A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial.


Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: “assim eu quereria o meu último poema”. Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho — um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triang ular.

A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: “parabéns pra você, parabéns pra você…” Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura — ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de
bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido — vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.



Texto extraído do livro “A Companheira de Viagem”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1965, pág. 174.



{Janeiro 25, 2010}   Literatura em foco

O que uma tradutora apaixonada por filmes nacionais e poesia do século XVIII, um estudante de matemática, um de agronomia e um de biomedicina têm em comum?

Aparentemente nada. Mas eles têm. Uma paixão. A paixão pela literatura, pela leitura, pelas múltiplas leituras. E dela, provavelmente, nasceu  o literaturaemfoco.com: de- li- ci- oso. Recheado de poesias, vídeos, contos, crônicas, imagens.

Podem me corrigir se eu estiver enganada, por favor.

Conheci através do twitter e hoje a Laís Azevedo postou esta maravilha do Lenine.

Amanhã tem análise da letra. Vamos aguardar.

Obrigada, Laís. Esta do Lenine eu não conhecia e simplesmente adorei.

Agora vou pensar no porquê. rs


Lenine – Magra

Composição: Lenine e Ivan Santos

Moça

Pernas de pinça

Alta

Corpo de lança

Magra

Olhos de corça

Leve

Toda cortiça

Passa

Como que nua

Calma

Finge que voa

Brasa

Chama na areia

Bela

Como eu queria

Magra, leve, calma

Toda ela bela

Tudo nela chama

Segue

Enquanto suspiro

Toda

Cor de tempero

Cheira

Um cheiro tão raro

Clara

Cura o escuro

Ela

Braços de linha

Dengo

Cheio de manha

Durmo

E peço que venha

Acordo

E sonho que é minha

Magra, leve, calma

Toda ela bela

Tudo nela chama


Confiram outras delícias no http://www.literaturaemfoco.com/



{Dezembro 30, 2009}   Retrospectiva 2009

Retrospectiva 2009

Pedroooo, devolva meu chip!!!

Cem anos de solidão? 50 bastam!

Você canta bem, acredite!

Eu sei essa parte: “Butterflies so crazy, mmm mmm”

Suco de kiwi, suco de abacaxi.

Nuvens, nuvens. Pastoreio. Fique à vontade.

O céu, as fotos, a geografia, cirrus, cúmulos-nimbos e a roupa no varal.

A mala. Amá-la. Amada. BRs. Vai e vem.

20 anos sem muros, um ano: Isto é construir!

Livros, livraria, textos, tecidos, tricotar, textura.

Macia.

Azeite de oliva, é claro.

Aulas, aulas, aulas.

Você sabe, eu não.

Pour toujours

O tempo, calor, chuva, previsão. Atraso.

Almoço! E não vem de garfo que hoje é sopa. Delícia.

Tá bom.

E não venha de garfo porque hoje o almoço é formal. Melhor ainda!

Cozinha, sala, música! Quarto…hummm… Bouf! Tchinnncc! Bing! Barrouf!

Quem dorme com um barulho desses?

“Down with sticks and up with bricks”

Pedrooooooo, devolva o meu chiiiiiip!

“Je m’en fous du passé

je repars à zéro.”



{Dezembro 9, 2009}   Múltiplas leituras

A princípio ele é um livro que causa estranhamento. Muito mais pela estratégia narrativa que pela ousadia em descrever personagens desagradáveis de nossa história.

Repleto de citações de dezenas de autores que vai de D. H. Lawrence a Sylvia Plath, Yourcenar a Fitzgerald, Kundera a Clarice Lispector, T. S. Eliot, Pasternak. O leitor se delicia a cada momento com a loucura das interrupções das chamadas númericas que permeiam os capítulos centrais.

Um trecho da exortação de Ignácio de Loyola Brandão que me instigou ainda mais a leitura.

“Carrero me lembra Henry Miller, com muito mais violência. Ele não poupa personagens, assim como não poupa o leitor. E no entanto, ficamos fascinados, não há como largar o livro, (…) Carrero é cheio de humanidade para com sua gente, com sua Recife. Está avisado. Se não quiser, não entre. Entrando, não há de se arrepender…”

Vamos a um trecho do livro:

“(…) Deveria acordar Leonardo? E Biba? Por que dormira no chão, embaixo da rede? Não daria atenção a Siegfried. Ele que fizesse o café quando acordasse.

“Os medíocres não conseguem ser derrotados, pois não sabem distinguir nem o que significa realmente vitória do que seja derrota. A verdade é que não atingem a condição plena do humano, por não terem idéias próprias, não se individualizam. Fazem parte de uma enorme e poderosa classe, constituem verdadeiras legiões, imbatíveis. Geralmente, não têm distinção nem pudor. Gostam de se exibir através de roupas (como cuidam do exterior), de cargos, de títulos, de jóias, de livros publicados de qualquer jeito, visando apenas notícias nos jornais e tardes de autógrafos. Confundem, quase sempre, espalhafato e berros da moda com elegância. Possuem uma incontrolável tendência para se tornarem macacos de auditório de qualquer idolozinho que apareça. Escancaram-se, apresentam, em toda oportunidade que apareça, o rol das coisas que conseguiram, dos objetos que possuem, por mais insignificantes que elas sejam. Poderia até inventar um lema para eles: quem não se exibe não existe. São os campeões, segundo Fernando Pessoa, poeta que se considerava derrotado até nos pequenos acontecimentos da vida.  É comum também essas pessoas perderem o sentido de lealdade. Leais apenas ao sucesso, representado em duas coisas fáceis: dinheiro e poder. Tudo mais podem trair: até eles mesmos.”

Ísis pensava nesse texto de Renato Carneiro Campos quanto entrou no quarto para acordar Leonardo. Via o alemão. Nu. Deitado na cama. Mais do que deitado: esparramado. Como se tivesse a consciência tranqüila. Como se pudesse dormir à solta. Um medíocre. Um traidor. Um aventureiro. No íntimo: um invejoso. Precisava de sucesso, mesmo com traições. Para manter a macheza. Para se fazer de invencível.” (p.87-88)

Leia mais: Somos pedras que se consomem. Raimundo Carrero. Iluminuras. 1995.

Veja se está disponível na Biblioteca Pública do Paraná pelo catálogo eletrônico, se não estiver, empreste outro livro e boas férias!

http://www.pergamum.bpp.pr.gov.br/biblioteca/index.php?resolution2=1024_1#posicao_dados_acervo



{Novembro 4, 2009}   Múltiplas Leituras

GetAttachmentwrthrDescobrir como o acervo de uma biblioteca escolar pode contribuir para a formação leitores não é tarefa fácil. No entanto, ela é uma reflexão necessária para implantar e transformar as práticas de leituras na escola, pois se faz necessária a criação de condições concretas de leitura e a trajetória escolar é privilegiada com situações para que elas sejam criadas.

É recorrente a discussão da importância da leitura de livros, e digo leitura de livros e não de outros suportes – talvez pela falta de reconhecimento de que a leitura se processa nos mais diversos suportes, ou pela tradição dos livros que perdura séculos – nos corredores da escola, nos intervalos, nas reuniões pedagógicas, de toda instituição preocupada com uma formação integral de seus alunos.

Pais, pedagogos, coordenadores, professores e a sociedade em geral discutem a crise da leitura. E essa crise, conforme prevê Silva (1996, p. 12) se dá pela falta de criação de condições de leituras. E

                        “(…) A tão-propalada “crise da leitura” não é uma doença destas últimas décadas e nem deste século: ela vem sendo reproduzida desde o período colonial, juntamente com a reprodução do analfabetismo, com a falta de bibliotecas e com a inexistência de políticas concretas para a popularização do livro.”

A leitura é instrumento que possibilita a descoberta e ampliação das representações do mundo e através de práticas de leitura o homem pode se conscientizar de sua condição social, cultural e histórica para uma “superação do status quo individual ou coletivo através do exercício da crítica dos fatos, das representações tidas como verdadeiras.” (SILVA, 1996, p. 19)

Além disso, pela leitura se dá a construção do imaginário. Os componentes do imaginário, que são tecidos com fios, invisíveis ou não, advindos do simbólico, estabelecem uma relação com o que podemos chamar de mundo real, e como tal é complementar e dialógica, e a instituição de um imaginário pode estar investida de mais “realidade” do que o próprio real.

Referências

NÓBREGA, Nanci Gonçalves. Tapete Mágico. Leituras compartilhadas. Ano 03. fascículo 09.

___. Acervo, Memória, Reserva Simbólica. Saberes. Curitiba. 2006.

SILVA, Ezequiel Theodoro da. A produção da leitura na escola. Pesquisas x Propostas. Ática, São Paulo, 2000.

___. Leitura na escola e na biblioteca. 4. Ed. Campinas, Ed. Papirus, 1996.



{Outubro 22, 2009}   Primavera!

1flor58Ela é bela

A Natureza toda formosa

como sempre glamurosa

Entre as 4 estações

você é que marca os corações.

Sempre colorida e bela

eu me admiro

com sua beleza pela minha janela

observando a perfeição da natureza.

Você chega alegrando

as flores dos bosques e campos

todos saem para te prestigiar

você colore o quintal do nosso lar

Primavera, verão, outono e inveno

você é o que eu mais espero!

Gabriela e Aline 1ºk



{Outubro 22, 2009}   Primavera!

CA55TVC8CAQ6KVENCAWLOQ8XCAEQXF3TCAH9FUA0CACU0JOCCA24M0XSCAULHXKBCAAK8CXHCAD4Q49LCA3PUAAOCA1MXL4LCAO60TGBCAU8GSRXCAK6G1O2CA2CSE1DCAYE63HOCA2NKMEVCAMYPD29A primavera chegou e nos contagiou

Sua luz nos traz alegria

seu teor trouxe amor

as árvores assombram nosso viver

aflora nossas vidas com prazer

a mágoa nos faz esquecer

e o ódio para nunca mais voltar

lindo dia, lindas flores num campo sem dores

a primavera traz um lindo luar

E o céu faz brilhar

Enfim quando ela chega

A primavera me aconchega

 

Henrique Jr., Nilson, Rodrigo 1º J



et cetera